O poder civilizatório do espaço público
Administrador de empresas pela FGV, doutor em urbanismo pela FAU-USP e autor do livro 'Espaço Público e Urbanidade em São Paulo'
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Todo mundo já constatou a importância das redes sociais para as eleições, mas a mudança de humor dos últimos dias parece ter mais a ver com a presença física no mundo real. As manifestações de domingo deixaram marcas. O "gostoso da Paulista" foi mais falado que as palavras de ordem. As pessoas que foram à rua manifestaram seu prazer em compartilhar o espaço público.
É o efeito civilizatório do espaço público, seja nos pequenos gestos cotidianos, seja nos grandes atos de expressão coletiva.
O Centro de São Paulo sempre foi o lugar das grandes manifestações, mas a Paulista foi lentamente tomando seu lugar. Alguns localizam o pioneirismo na ocupação da avenida na comemorações da torcida do Corinthians pelo título do Campeonato Paulista de 1977.
Hoje, ir à Paulista em grupo é um hábito compartilhado por segmentos bem diferentes entre si. Gente que veste branco para ir ao Réveillon, que se pinta para a Parada do Orgulho LGBT+, que beija o uniforme do seu time para comemorar um título da Libertadores , que calça tênis para correr a São Silvestre ou que nem pensa no que usar quando toma a Paulista Aberta aos domingos. E não deixa de ser notável que o mesmo espaço seja disputado por manifestações dos dois candidatos do segundo turno.
Há uma dimensão sensorial que se agrega à dimensão simbólica de todos esses atos. Afinal, andar a pé em grupo é uma experiência poderosa, que suprime momentaneamente as diferenças –a tal efervescência coletiva, um termo cunhado pelo sociólogo Émile Durkheim –seja numa torcida, num bloco de carnaval ou numa passeata.
Além das manifestações gigantes, épicas, o espaço público também é o palco dos milhões de interações cotidianas. Diariamente, compartilhamos o espaço com outras pessoas, cedemos passagem a quem tem pressa na escada rolante do metrô, esperamos na fila para pedir o pastel misto na feira, levamos o cachorro ao cachorródromo ou tropeçamos numa conversa inesperada.
Se há o encontro, há também o desencontro. Há alguém que passa na minha frente, outro ouve música alta sem fone, outro ainda demora vinte minutos para digitar o código na maquininha quando temos pressa. É chato mesmo, mas faz parte do crescimento. É o aprendizado cotidiano, lento, que nos ajuda a virar adultos e a respeitar a convivência com o outro.
Numa calçada ou num parque, podemos até tropeçar num vizinho desagradável ou em alguém que pensa diferente, mas, em público, sentiremos o poder de contenção que não se manifesta num post raivoso de madrugada. É a antítese das redes, a antítese dos muros. Sem esse aprendizado, o risco é alto: o de perdermos a sensibilidade para aceitar diferenças e passarmos a ver o outro como ameaça.
Voltando ao que importa neste momento, as eleições. O direito ao espaço público não é dado. Quando um projeto implícito de país que claramente explicita o domínio do interesse privado sobre o público, o que está em jogo é a nossa própria identidade.
Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em noticias.uol.com.br — o conteúdo pertence a UOL Notícias.