Mendonça, Moraes, Lenine e Gramsci: na democracia, não há lei sem lei
O tempo passa, o tempo voa, e cá estou eu de volta a 2014, ano de criação da Lava Jato, a indagar se faz sentido que um ente do Estado, especialmente de seu braço coator — a Justiça —, recorra a práticas ilegais para fazer… justiça! Antes, o juiz justiceiro era Sergio Moro; agora, é André Mendonça.
Outra vez isso? Como costumo fazer, poderia identificar a árvore pelos frutos: o que ganhamos exatamente com o mergulho na ilegalidade mais abjeta sob o pretexto de combater a corrupção? Cada um escolha o seu sonho e o seu caminho.
Vou no meu.
Antevi, naquele ano, com as ações de um juiz e de um MPF acima da ordem legal, o fermento da fascistização do país — que é coisa bem distinta do conservadorismo — este, para sê-lo efetivamente, preserva necessariamente as instituições em vez de corroê-las.
E aconteceu.
Vem-me, então, uma música: Mesmo quando tudo pede um pouco mais de calma Até quando o corpo pede um pouco mais de alma A vida não para Enquanto o tempo acelera e pede pressa Eu me recuso, faço hora, vou na valsa A vida é tão rara Enquanto todo mundo espera a cura do mal E a loucura finge que isso tudo é normal Eu finjo ter paciência O mundo vai girando cada vez mais veloz A gente espera do mundo, o mundo espera de nós Um pouco mais de paciência Eis “Paciência”, do grande Lenine, em parceria com Dudu Falcão.
Sou esse impaciente paciente na vida.
E um paciente impaciente com médicos, coitados! É com certa paciência histórica que leio os fatos da política.
Nunca saio saracoteando a vitória de uma tese nem decreto a morte da humanidade porque, afinal, não se cumpriu alguma das minhas prefigurações.
PESSIMISMO DA INTELIGÊNCIA, OTIMISMO DA VONTADE Num “Discurso aos Anarquistas”, em 1920, Gramsci recorreu a um contraste magistral: pregou “o pessimismo da inteligência” e o “otimismo da vontade”, um par contrastante que repetiu em 1924 no texto “Contra o Pessimismo”, puxando as orelhas da militância por sua passividade diante da ascensão do fascismo.
Repetiu o aforismo, já preso, numa carta ao irmão, e depois nos monumentais “Cadernos do Cárcere”.
E revelou: a sacada não era sua, mas de Romain Rolland.
Foi condenado pelo regime a mais de 20 anos, ficou efetivamente na cadeia por oito e em clínicas, sob os olhos da polícia, até 1937.
A maior parte dos “Cadernos” foi escrita nos quatro primeiros anos de reclusão.
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