Reajuste do Bolsa e fim da 6x1 são eleitoreiros. Mas o povo agradece
Parte dos analistas de mercado e a turma que acha que a economia é uma ciência exata descolada da vida humana estão rasgando as vestes. O motivo? Acusam o governo Lula de oportunismo eleitoreiro ao bancar o reajuste inflacionário de 15% no Bolsa Família e forçar a aprovação, na Câmara dos Deputados, do fim da escala 6x1.
A grita nos salões refrigerados é de que tudo não passa de uma manobra para garantir votos neste 2026. A resposta mais honesta para essa acusação é: sim, é eleitoreiro. Mas há um complemento: graças a Deus que existe a pressão das eleições.
O que a indignação seletiva ignora é que apenas quando a urna se aproxima que a correlação de forças muda no Brasil. Fora do calendário eleitoral, o Estado brasileiro é uma máquina azeitada para atender ao andar de cima, distribuindo subsídios e isenções bilionários e refinanciando dívidas de grandes empresários com juros de mãe. É só quando o voto do trabalhador precarizado passa a ter o mesmo peso do voto do banqueiro que o poder público é pressionado a olhar para baixo.
A história recente não nos deixa mentir. O salto no valor do Bolsa Família para a casa dos 600 mangos não nasceu de uma epifania de bondade do Estado, mas da disputa ferrenha de foice no escuro entre Lula e Jair Bolsonaro às vésperas do pleito de 2022.
Agora, a lógica se repete. O governo Lula segurou a recomposição inflacionária do programa social por mais de três anos, sob a justificativa de responsabilidade fiscal e da necessidade de conter gastos. As famílias mais pobres tiveram que se virar com a inflação dos alimentos. Com a água batendo no pescoço e a necessidade de reencantar o eleitorado mais pobre, os 15% de aumento tiveram que caber no orçamento.
É eleitoreiro? Lógico que é. Mas vá dizer para a mãe solo que finalmente vai conseguir comprar mais mistura para os filhos que ela deveria recusar o dinheiro porque a motivação do governo não foi pura.
O mesmo vale para o fim da escala 6x1, esse moedor de carne humana que rouba o direito ao convívio familiar, ao descanso e à saúde mental de milhões de brasileiros. Apoiada por esmagadores 80% da população, a pauta foi combatida ferozmente pelo poder econômico. Por que, de repente, deputados conservadores que sempre votaram com o patronato decidiram aprovar a medida na Câmara? Resposta: eles tiveram pavor de chegar em outubro e ter que explicar na feira, na igreja ou na porta da fábrica por que condenaram o trabalhador a uma vida de exaustão contínua.
Muita gente bonita crescida no leite de pêra reclama que a pauta é eleitoreira e que não deveria ser analisada agora. Em meio a isso, Flávio Bolsonaro e aliados conseguiram bloquear o trâmite no Senado quando a proposta estava para ser votada.
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