Jorge Furtado, que retorna à comédia, faz do cinema uma mistura entre vida e ficção
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Muita gente lembra de ter visto " Ilha das Flores " quando era estudante. O curta de Jorge Furtado , conhecido por roteiros sagazes, traz temas espinhosos e latentes da realidade brasileira, como a fome e a desigualdade, com a leveza de uma brincadeira.
Ao menos é a impressão causada pelos arquivos, esquetes, colagens e a narração que o filme usa, em poucos minutos, para falar sobre aquela ilha do delta em Porto Alegre , marcada pela pobreza.
Nos anos seguintes, personagens do cineasta continuaram a fazer reflexões parecidas, em filmes como " Saneamento Básico ". Com Fernanda Torres e Wagner Moura , a comédia acompanha moradores de uma cidade do Rio Grande do Sul que decidem rodar um filme sobre um monstro que ganha vida após o acúmulo de lixo na região.
"A pornografia sempre seguiu tecnologias", diz o diretor e roteirista, que teve a ideia para o longa a partir do desejo de pôr paixões humanas e algoritmos do mundo virtual em rota de colisão. "Calcula-se que 30% do fluxo digital diz respeito à pornografia. Hoje, sites tentam oferecer um cardápio do que nos excita. Isso tem um potencial cômico enorme."
No longa, um motorista de aplicativo, interpretado por Daniel de Oliveira , herda um motel abandonado. Ele encontra uma funcionária, papel de Luisa Arraes , morando ali. Sem dinheiro para restaurar o local e cheios de dívidas, eles fecham uma parceria e começam a publicar na internet vídeos de sexo dos amantes que ocupam suas suítes.
O que começa como uma contravenção despretensiosa, mirando um extra financeiro, evolui para uma rede de produção mais complexa, com filmagens roteirizadas e uso de inteligência artificial para esconder a identidade das estrelas amadoras. Apesar da premissa, o filme não é explícito e prioriza as expressões dos que espiam um mundo íntimo via telas, em vez da intimidade sobre a cama.
"Sexo não é engraçado. Erotismo não é engraçado. Ou é uma coisa, ou é outra. Esta é uma comédia romântica", diz Furtado ao justificar a escolha por mostrar pouco, numa época em que se discute um suposto desinteresse dos jovens por sexo.
Ainda assim, ele ri ao relembrar peculiaridades que descobriu enquanto escrevia o roteiro, como um quarto temático de motel, inspirado na Operação Lava Jato , com fotos do presidente Lula sendo preso por Sergio Moro .
"Já existem motéis em que o casal sabe que será filmado e recebe uma cópia da performance. Eles também se modernizam com a internet."
Sugerir, mais do que mostrar, sempre foi algo que interessou Furtado enquanto cineasta. Inspirado num conto de Luis Fernando Verissimo , seu primeiro curta, "Temporal", acompanhava o choque entre um grupo de idosos religiosos e outro de jovens que só querem beber e transar. Cores fortes, cenários teatrais e papéis caricatos sugerem uma atmosfera de perversão, que enlaça os personagens entre trovões e quedas de luz.
Mais tarde, em 1986, Furtado espelhou cicatrizes da ditadura militar no premiado "O Dia em que Dorival Encarou a Guarda".
Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em noticias.uol.com.br — o conteúdo pertence a UOL Notícias.