Acreano, acreanidade e a bandeira dos oportunistas
Os candidatos estão aparecendo abraçados à bandeira do Acre. Querem demonstrar que amam esta terra, seguramente porque pesquisas qualitativas mostraram que o acreano está valorizando a própria identidade. Isso me anima e me revolta ao mesmo tempo. Não sejamos radicais: para alguns, esse gesto até pode fazer sentido. Mas a maioria deveria sentir vergonha de tamanho oportunismo.
Não faz muito tempo, na esteira do ódio plantado pela extrema-direita contra aquilo que ela própria apelidou de “florestania” — que, diga-se, é um conceito bem diferente da intenção original da palavra — falar das coisas do Acre era quase um pecado. Você se lembra? Até pouco tempo atrás, qualquer manifestação que remetesse a seringais, povos indígenas, floresta, rios e igarapés, ou mesmo a bolo de macaxeira e chuva caindo no terreiro, era tratada como “coisa da esquerda”, de gente que é contra o progresso.
Moderno era falar de boi, cavalo e soja, ouvir música sertaneja e adotar o “r” retroflexo do Mato Grosso. Lembremos, porque o esquecimento apressa o retorno aos erros já cometidos: Gladson Cameli foi eleito, alçando Márcio Bittar ao Senado, prometendo agro, agro e mais agro.
E lembremos também que o agro prometido por eles, desde lá atrás, é aquele que nega a floresta e a nossa memória coletiva e, junto com elas, nega as nossas raízes acreanas e a nossa ancestralidade amazônica e nordestina.
A cultura, em suas diversas formas de manifestação, não deve ser congelada no tempo. Afinal, toda cultura é viva. É natural que a culinária mude, que os gostos musicais se transformem e que mitos, valores e celebrações sofram alterações. O que não é natural é o apagamento de uma cultura pela imposição de outra.
E foi isso que, mais uma vez, se tentou fazer aqui no Acre. Repetindo processos iniciados nos anos 1970 e no começo dos anos 1980, houve uma tentativa de aniquilar a memória coletiva do povo acreano e apagar a consciência de quem somos e do território em que estamos inseridos.
A negação do lugar em que nascemos e vivemos, como se esse lugar pudesse não apenas ser transformado, mas abstraído da vida real das pessoas.
E algo assim não acontece sem consequências. A perda da referência do lugar, da memória e dos modos tradicionais de vida, provocada pela imposição de uma cultura estranha, gera desenraizamento. Olhar para a própria cultura como algo inferior, atrasado ou vergonhoso é mais profundo do que simplesmente deixar de praticar determinados costumes.
Nos anos 1980, o brutal êxodo rural provocado pela entrada violenta da pecuária no Alto Acre, somado ao abandono dos trabalhadores que ainda viviam nos seringais, gerou o inchaço das cidades, o desalento dos seringueiros, o desemprego, a perda de referências, o alcoolismo e a desagregação familiar.
Se você busca uma das raízes históricas de nossos indicadores mais absurdos — como violência, gravidez na adolescência e pobreza —, é preciso olhar também para esse processo.
Muita atenção para quem promete transformar o Acre em uma Rondônia. Nosso vizinho foi majoritariamente colonizado por sulistas trazidos pelo INCRA nos anos 1970 e 1980.
Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em ac24horas.com — o conteúdo pertence a ac24horas.