Presidente da Suprema Corte do México diz à AFP que é criticado por ser indígena
Um indígena preside a Suprema Corte do México pela primeira vez em 168 anos. Hugo Aguilar assegura que deve tudo à polêmica reforma judicial impulsionada pela esquerda no poder no país, mas ainda enfrenta críticas racistas diariamente pela "camisa", pelo "sapato" ou pelo "penteado".
Aguilar, de 53 anos, foi o candidato mais votado das primeiras eleições judiciais do ano passado, quando o México se tornou o único país do mundo a escolher todos os seus juízes pelo voto popular. O único indígena a presidir a máxima corte antes dele foi Benito Juárez, considerado o pai do México moderno.
"Sem a reforma, eu não estaria aqui", diz à AFP este juiz, proveniente de San Agustín Tlacotepec, povoado mixteco em Oaxaca, que veste uma 'guayabera' (camisa regional) branca com bordados indígenas.
"Eu, como advogado, vinha aqui e o que mais pude fazer foi pisar no prédio", acrescenta, em sua primeira entrevista para um veículo internacional desde que assumiu o cargo, há quase um ano.
Ele dedicou toda a sua vida às causas indígenas, sem pensar que um dia chegaria a presidir a Suprema Corte.
Sereno, responde a quem o situa como um peão dos governos de esquerda, presididos primeiro por Andrés Manuel López Obrador e agora por sua sucessora, Claudia Sheinbaum.
"Se eu fosse, como dizem, do regime do ex-presidente ou da atual presidenta, eu teria sido ministro há cinco ou seis anos", afirma.
E destaca que os ataques contra ele nunca se centram na parte judicial. "É porque visto mal a camisa, é pelo sapato, é pelo penteado", enumera.
"A crítica contra a minha pessoa é (por ser) índio", dizem que por isso "não tem possibilidades, não tem capacidade, não tem conhecimento, não tem aptidão".
Aguilar é pouco afeito a fotos. Posa incômodo na imponente sede da Suprema Corte de Justiça, junto de um retrato de Benito Juárez que, como presidente do México, consolidou a república atual.
A reforma recebeu duras criticas da oposição e de especialistas, que alertam para uma politização do sistema judicial.
Embora os partidos não tenham participado da eleição, houve denúncias de que a situação promoveu candidatos, incluído Aguilar.
No entanto, Aguilar insiste que a política não ofuscará a corte que ele preside.
"Todos pensavam que a Corte entraria em um terreno de ativismo judicial, de ter resoluções sem sustentação jurídica, sem se basear na Constituição", explica. "Muitos dizem, 'A corte mudou, mudou todo o sistema... A segurança jurídica vai para o lixo'".
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