Sem medo de ser vulgar, Dolly Parton foi radical em seu feminismo
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Dolly Parton , morta nesta terça-feira, dia 25 , foi uma feminista radical. Talvez não seja a primeira coisa que venha à cabeça quando a gente pensa nela, porque antes vêm os peitos, o cabelo, as unhas, as roupas cheias de franjas e brilhos, aquela voz e, claro, "Jolene". Mas Dolly passou a vida fazendo exatamente o que queria num mundo que sempre teve muitas opiniões sobre o que uma mulher deveria fazer, vestir, cantar, mostrar, esconder e, principalmente, desejar.
Ela compôs "9 to 5", um hino sobre mulheres trabalhando muito, ganhando pouco e aguentando chefes homens que levavam o crédito. Compôs "Jolene", que é praticamente uma aula sobre como transformar ciúme e insegurança em três minutos de perfeição. E compôs "I Will Always Love You", que muita gente ainda acha que é da Whitney Houston. Não é. É da Dolly, que teve inclusive a inteligência de não entregar metade dos direitos da música para Elvis Presley quando o empresário dele exigiu isso para que Elvis a gravasse.
Dolly tocava violão com aquelas unhas postiças gigantescas e descobriu que podia usá-las como instrumento. O ritmo que se ouve em "9 to 5" foi feito com as unhas dela. É uma informação tão Dolly Parton que parece inventada.
Também é difícil acreditar que exista Dollywood, um parque temático dedicado ao universo dela no Tennessee, mas existe. Dolly nunca teve medo de ser demais. Pelo contrário, ser demais era meio que o projeto.
Quando era menina, ela via na cidade uma mulher que todo mundo considerava vulgar. Cabelo enorme, maquiagem, salto alto, roupas apertadas. Dolly achava aquela mulher a criatura mais bonita que já tinha visto. Só depois descobriu que era a prostituta da cidade. A família avisou que aquela não era exatamente uma pessoa que uma menina deveria querer imitar. Dolly basicamente pensou: azar.
As perucas ficaram maiores, os peitos também, a cintura menor, as unhas mais compridas, as roupas mais apertadas. Quando perguntavam quanto tempo levava para fazer aquele cabelo, ela respondia que não sabia porque nunca estava lá quando faziam —era uma peruca. Quando perguntaram quanto havia custado para ela parecer tão barata, respondeu: "Muito".
E o mais incrível é que ela não ficou congelada como uma dessas lendas que a gente respeita porque sabe que tem que respeitar. Dolly continuou por toda parte. O disco novo —nem tão novo, mas enfim— da Beyoncé é todo atravessado por ela. "Cowboy Carter" não existiria do mesmo jeito sem Dolly, que aparece no disco e entrega a Beyoncé a própria "Jolene" para ela desmontar e montar de novo. E Miley Cyrus, afilhada de Dolly, construiu uma carreira em que também dá para enxergar essa herança: a voz, o country, o exagero, a recusa em se comportar como esperavam que ela se comportasse.
Beyoncé é incrível. Miley é incrível. Mas, juro, nenhuma chega aos pés.
Dolly é tipo uma Madonna, só que sem a raiva. Tem a mesma capacidade de inventar a própria personagem e depois passar décadas mostrando que a personagem também é a pessoa.
Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em noticias.uol.com.br — o conteúdo pertence a UOL Notícias.