Mãe narra luto infinito após sete anos da tragédia de Brumadinho
Você tem 7 acessos por dia para dar de presente. Qualquer pessoa que não é assinante poderá ler.
Helena Taliberti é uma semeadora. De palavras que abraçam, de abraços que convidam a permanecer. Mas, essencialmente, uma semeadora de memórias. Das memórias dos filhos Camila e Luiz, do neto Lorenzo e da nora Fernanda —agora, eternizados no livro "Tentam nos Enterrar, não Sabem que Somos Sementes" (Ofício das Palavras), onde Helena corajosamente narra o luto infinito de uma mãe após a tragédia de Brumadinho.
"O luto tem um dicionário próprio, caótico. Não há nenhuma palavra que descreva ou defina o que sinto. O dicionário não tem nada que ajude ou alguma palavra que faça sentido. Porque o luto não tem sentido, não se resolve, não se cicatriza, é como amputação de um membro, cuja sombra estará sempre ali. É desconhecido e se infiltra em tudo, como água", diz a autora em uma das páginas. Dia 25 de janeiro de 2019, feriado de aniversário de São Paulo, cidade onde Helena mora. Ela recebe uma notificação por celular: uma barragem se rompeu. Envia uma mensagem aos filhos, que visitavam o Instituto Inhotim, em Brumadinho, Minas Gerais. Nenhuma resposta, silêncio total.
"As tragédias parecem sempre pertencer a outro lugar. A outros. Nós nos compadecemos, nos solidarizamos, mas existe uma distância natural, até inconsciente, que nos mantém como espectadores. A não ser que ela nos bata à porta e entre casa adentro", lemos em outro trecho do livro. Nessa noite desesperadora, Helena tentou tudo que uma mãe poderia fazer, mesmo à distância. Falou com operadoras de telefonia na esperança de localizar os celulares via GPS, mas esbarrou na burocracia, essa grande cúmplice do silêncio e um exemplo de como as organizações e os serviços não estão prontos para o inesperado das tragédias. No dia seguinte, ela e o marido Vagner viajaram para Belo Horizonte. Ao chegar, depararam-se com novas burocracias, falta de informações. Registraram o nome dos filhos ao menos sete vezes em uma lista. "Tomados pelo caos de uma tragédia que humaniza a dor, mas desumaniza a urgência dos procedimentos, sem que eu pudesse elaborar minimamente, me perguntaram o que eu gostaria de fazer com o corpo."
Não havia corpo, apenas sacos pretos, fechados, com etiquetas com código de barras e um número. "A esperança rarefeita foi se transformando em um sentimento estranho. Selvagem. Desespero já não era um termo que definisse o que me habitava (...) Talvez, ansiedade pela ausência, pelo desaparecimento e pela confirmação da morte. A certeza de que nada era ficção."
Ao ler Helena, lembrei da escritora ruandesa Scholastique Mukasonga. Sua mãe dizia às filhas para proteger seu cadáver ao morrer. Mas a escritora não teve essa chance . Sua mãe morreu em 1994, durante o genocídio de Ruanda. Ninguém pode cobrir com um pano o corpo mutilado. O livro "A Mulher de Pés Descalços" é essa tentativa de cobrir o corpo da mãe com uma mortalha —uma mortalha de palavras. Helena nos convida a realizar o ritual de despedida de seus filhos também. Estamos diante de uma caminhada fúnebre, mas cheia de frestas, respiros e flores.
Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em noticias.uol.com.br — o conteúdo pertence a UOL Notícias.