Aposentadoria expõe a conta afetiva das mulheres entre carreira e filhos
Diretora do Instituto Gerar de Psicanálise, autora de “Manifesto Antimaternalista” e “Felicidade Ordinária”. É doutora em psicologia pela USP
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Quando chega a aposentadoria , há uma contabilidade afetiva entre carreira e filhos diferente para os gêneros. Muitas mulheres, ao desfrutarem do merecido descanso, têm que fazer o luto do pouco tempo de qualidade que dedicaram à prole. Imersas na lida diária, não puderam se dar ao luxo de desfrutar da companhia das pessoas a quem criavam.
É raro observar o mesmo entre os homens, que costumam encerrar a carreira com a sensação de dever cumprido. A queixa mais comum é da perda de status profissional e da falta de atenção dos filhos para com eles, agora que a aposentadoria os fez mais disponíveis.
Mulheres sempre trabalharam dentro e fora de casa, bancando ou completando o orçamento doméstico. O que mudou a partir dos anos 1960 foi assumirem a profissão não só para equilibrar as contas do lar mas também como direito.
O fato de a mulher receber um salário era a prova de que seu homem não era suficientemente provedor. Seja porque estivesse desempregado, porque não ganhasse o bastante ou simplesmente porque a tivesse abandonado, o trabalho feminino remunerado escancarava a falta masculina.
Nos lares nos quais meninas vestem rosa e meninos vestem azul, a dependência financeira da mulher ainda é usada como forma de controle. Além disso, o trabalho doméstico faz diferença na economia familiar. Sem essa mão de obra gratuita, as tarefas de cozinhar, lavar, limpar, transportar, gerir e cuidar dos filhos teriam que ser assumidas pelo homem ou por terceiros remunerados.
Mulheres ganham menos, são dispensadas após a gestação, recebem menos promoções, trabalham mais em casa e são responsabilizadas pela criação dos filhos. Nessa labuta desigual e ensandecida, seja pelos obstáculos, seja pelo prazer pessoal da realização, muitas acabam privadas de um contato íntimo com os filhos porque estão ocupadas demais ou exaustas demais.
Há também mulheres que, tendo se dedicado integralmente aos filhos, abrindo mão de oportunidades profissionais, se ressentem pelas aspirações e pelo talento desperdiçados. Ao vê-los saindo de casa, bancando seus próprios sonhos, lembram do sacrifício feito em seu nome. Assumir o papel de mãe, sogra ou avó enxerida é uma forma de cobrar a continuidade de sua relevância na família.
Podem ainda demonstrar desinteresse por participar da vida dos descendentes, reivindicando assim a "aposentadoria" pelo cuidado compulsório. Esses são dilemas femininos recorrentes na clínica psicanalítica, assombrados pelas injustiças de gênero.
A física explica: não se pode estar em dois lugares ao mesmo tempo. A demanda sobre as mulheres é criar filhos como se não trabalhassem e trabalhar como se não tivessem filhos. Trata-se do luto de um ideal impossível que raramente se escuta no mundo masculino.
Mulheres podem se orgulhar de sustentar a ética do cuidado, de serem as guardiãs da vida e das próximas gerações, mesmo sendo chefes de mais de 50% dos lares brasileiros.
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