Palavras que o Atlântico não afogou
Às vezes pronunciamos uma palavra durante cinquenta anos sem desconfiar da história que carregamos na boca.
Chamamos o filho mais novo de caçula, fazemos cafuné numa criança, compramos fubá na quitanda, vestimos uma sunga para ir à praia, cochilamos depois do almoço, reclamamos da bagunça, xingamos alguém, encontramos um marimbondo no quintal.
Moleque, bunda, cachimbo, dengo, canga, tanga, capenga, camundongo.
O português cotidiano do Brasil guarda em palavras assim uma parte da África que o uso tornou tão familiar que sua procedência quase desapareceu.
Interessa-me esse esquecimento porque sei bem que o esquecimento está cheio de memória.
Reconhecemos a presença africana na música, na culinária, nas religiões, na dança; percebemos menos a herança que nos acompanha quando conversamos.
Angola ocupa lugar decisivo nessa história.
Durante mais de três séculos, a costa centro-ocidental africana esteve ligada aos portos brasileiros pelo tráfico de seres humanos.
Vieram homens e mulheres de regiões hoje correspondentes sobretudo a Angola e aos Congos, falantes de quimbundo, quicongo, umbundo e outras línguas bantas.
Obrigados a aprender o português, falaram-no diariamente e, geração após geração, também o transformaram.
Uma língua muda na vida comum.
Passa pelo mercado e pela cozinha, pelo trabalho, pela infância, pela briga, pelo namoro, pela música.
Quem vende fala com quem compra; quem trabalha junto encontra maneiras de se entender; quem cuida de uma criança participa da formação de seu ouvido.
Nesse convívio prolongado, palavras africanas deixaram de precisar de tradução.
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