Como a repressão ao crime pode cegar os sistemas que deveriam detectá-lo
Treinei um computador para reconhecer transações criminosas em bitcoin.
Nos testes, ele identificou 86% delas, quase sem alarmes falsos.
Então, de uma quinzena para a outra, passou a identificar apenas 2%.
Nada mudou no programa.
Mudou o mundo que ele observava: naquele momento, as autoridades haviam derrubado um grande mercado criminoso da internet, e quem usava bitcoin para fins ilícitos mudou de comportamento.
Diversos mercados ilegais funcionam na dark web, um conjunto de sites que só se abrem com programas especiais, como o navegador Tor, desenhados para esconder quem visita e quem hospeda.
O pioneiro, o Silk Road, lançado em 2011, parecia uma loja virtual qualquer, com vitrines de vendedores e avaliações por estrelas.
A diferença estava no catálogo, dominado por drogas, e no meio de pagamento, o bitcoin.
Fechado pelo FBI em 2013, teve muitos sucessores.
O maior deles, o AlphaBay, que vendia também armas e dados de cartões de crédito roubados, foi derrubado em julho de 2017 por uma operação conjunta de polícias americanas e europeias.
O bitcoin atrai esse comércio porque dispensa bancos: o dinheiro vai de um endereço a outro, identificados por longas sequências de letras e números, sem que ninguém precise conhecer os titulares.
Mas há um detalhe que muitos criminosos subestimaram.
Todas as transações ficam registradas, para sempre, num livro-razão público, o blockchain.
Não se sabe quem é o dono de cada endereço, mas se sabe quanto passou de um para outro, e quando.
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