Flávio Bolsonaro quer entregar o SUS aos empresários
“SUS no seu cotidiano” apresenta as conquistas do Sistema Único de Saúde e debate diferentes desafios que o impactam, identificando suas causas e possíveis formas de superação. A coluna busca contribuir para a compreensão do que é o SUS, como ele funciona, seus fundamentos, trajetória histórica, seus impasses estruturais e caminhos para a sua plena realização.
No último minuto da sabatina realizada na TV Globo, o candidato Flávio Bolsonaro (PL) fechou suas considerações fazendo uma ameaça ao SUS: se eleito, o seu Ministro da Saúde será Cláudio Lottenberg.
Para quem se preocupa com o SUS, vejamos quem é Lottenberg e o que a sua eventual presença como Ministro da Saúde revela sobre os planos da família Bolsonaro – aquela que empilhou 716 mil mortes na pandemia da covid-19.
Lottenberg tem como característica definidora ser um grande mercador da saúde. Um currículo centralmente formado na alta cúpula dos interesses patronais que exploram as aflições públicas.
Em 2016, após vender a sua rede de clínicas de oftalmologia, Lotten Eyes, para a gigante norte-americana UnitedHealth Group, o médico tornou-se CEO e consultor estratégico sênior desta corporação estrangeira que havia recém chegado ao Brasil.
Conhecida como o maior grupo mercantil de saúde do mundo, a UnitedHealth comprou 90% da operadora Amil por US$ 4,9 bilhões. Em 2023, a Amil foi revendida, os negócios entraram em crise, e a gigante norte-americana encerrou suas operações no país. Não fica clara qual a incompetência de Lottenberg neste processo.
Faz parte do currículo de Lottenberg a presidência do Instituto Coalizão Saúde (ICOS), que ganhou notoriedade com o golpe parlamentar contra a presidenta Dilma Roussef, em 2016. Desde então, com a democracia brasileira em crise, essa rede de patrões foi alçada ao centro do poder com o governo Temer, e se tornaram crescentemente influentes na política de saúde.
À frente do ICOS, a tese central de Lottenberg é simples e clara: (i) aprofundar oportunidades de negócios do setor privado junto ao SUS. O propósito é abrir o orçamento público da saúde ao lobby dos empresários do setor.
Como se autodescrevem, o ICOS é um conglomerado de patrões composto por prestadores de serviço, operadoras de planos de saúde, corporações da indústria farmacêutica e da indústria de materiais e equipamentos. Juntos nesse conglomerado patronal, que movimenta centenas de bilhões de reais por ano, adquiriu o poder de pautar e ameaçar a agenda da saúde no país.
Para isso, é preciso transformar completamente o SUS. E para isso, o nome fantasia que abre esse caminho chama-se parceria público-privada. Uma expressão que supõe união, acordo, uma sociedade ou uma colaboração entre interessados.
A proposta desses patrões da saúde para o SUS deve ser decodificada. É uma linguagem muito própria, com signos, sentidos e significados que não deixam transparecer o seu objetivo central.
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