Quem tem medo de Anne Carson?
Neste sábado, 10 de outubro, em Brasília, a primavera do cerrado ainda hesita entre a secura e a primeira chuva, e eu releio Anne Carson com a sensação de quem volta a uma casa onde já estivera sem saber o endereço.
Na quinta-feira, a Academia Sueca anunciou que a poeta, ensaísta, tradutora e classicista canadense, de 76 anos, recebe o Prêmio Nobel de Literatura de 2026.
A justificativa fala de uma obra audaz e inventiva que, em diálogo lúdico com a tradição clássica, criou formas novas para a literatura contemporânea.
Quem escreve há mais de quatro décadas aprende a desconfiar das fórmulas e a procurar, por trás delas, a biografia de uma obsessão.
A de Carson começa longe dos holofotes.
Imagine uma cidade pequena de Ontário em meados dos anos 1960.
Timmins, talvez, ou Port Hope, uma das muitas paradas de uma família que fazia as malas sempre que o banco transferia Robert Carson para outra agência.
A filha caçula, Anne, nascida em Toronto em 21 de junho de 1950, tem por volta de 15 anos.
Numa estante qualquer, encontra uma edição bilíngue dos poemas de Safo, a poeta de Lesbos cuja obra atravessou 26 séculos reduzida a pedaços.
Numa página, a tradução em inglês.
Na outra, aqueles sinais gregos, fechados como uma porta sem fechadura visível.
A menina lê o que compreende e fica olhando o que lhe escapa.
É ali, diante do ilegível, que nasce a escritora.
O acaso, que costuma ter mais senso narrativo que muitos romancistas, providencia o capítulo seguinte.
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