Desafio presente para Ricardo: “Agora é o futuro”, mas o passado é de Casagrande
“Agora é o futuro”. Entre aspas, o nome oficial da coligação liderada pelo atual governador, Ricardo Ferraço (MDB). A questão que se impõe a Ricardo – e o grande desafio, a meu ver – é: como fazer uma campanha que se projeta para o futuro remetendo o tempo todo a um passado recente, a um governo que já se encerrou e que não foi liderado por ele?
A reflexão aqui tem muito a ver com os papéis correspondentes. No governo Casagrande, Ricardo teve um papel importante, mas menor. Na campanha de Ricardo, Casagrande terá na certa, e já está tendo, um papel muito importante... mas também será menor?
Por um lado, é evidente que Ricardo precisa muito da força de Casagrande, não pode abdicar desse empurrão do ex-governador com as duas mãos em suas costas.
Ao longo dos últimos anos, todas as pesquisas de institutos sérios, inclusive a última da Quaest para a Rede Gazeta, publicada em julho, mostram um Casagrande muito bem avaliado como governador e favoritíssimo na eleição para o Senado no Espírito Santo. Na Quaest de julho, 79% aprovavam o último governo Casagrande e 59% avaliavam que “ele merece eleger um sucessor que ele indicar”, mas só 25% sabiam que Ricardo é o candidato dele.
Por outro lado, essa estratégia de colagem de imagem, se excessiva, isto é, se passar do ponto, pode denotar dependência, subordinação, falta de autonomia e de brilho próprio. Pode deixar Ricardo à sombra de Casagrande e inspirar desconfiança.
Além disso, como já vem indicando em seus discursos eleitorais desde a pré-campanha (“mesmo rumo e mesmo ritmo”), Ricardo fará uma campanha muito baseada na defesa do legado e no portfólio de realizações do “nosso governo”.
Mas vamos combinar que, para grande parte das pessoas, quando Ricardo diz “o nosso governo”, mesmo que o possessivo o inclua, o que vem à mente é o governo Casagrande.
Foi Ricardo partícipe do último governo Casagrande? Foi. Cumpriu papel de relevo e de destaque? Cumpriu. Foi um papel por certo muito importante , mas foi um papel menor. Terá sido, no máximo, um coadjuvante de luxo (em inglês, um bom supporting actor , sempre pronto a dar apoio e, literalmente, suporte a Casagrande).
Tendo sido um bom coadjuvante, poderá ele reivindicar crédito pelo êxito da peça? Não tendo sido o protagonista do governo recém-encerrado, poderá assumir e exercer o protagonismo da própria campanha?
Com pouco mais de quatro meses entre a posse e a campanha – e sendo ele o sucessor e o candidato de Casagrande –, nem deu tempo de Ricardo fixar uma “marca própria” de governo, muito menos de a população capixaba em geral assimilar uma mudança de guarda de fato no Palácio Anchieta. “Acabou nada”, diz o jingle de Casagrande em sua campanha ao Senado. É possível que, para muita gente, o governo Casagrande ainda nem tenha acabado de fato.
Vamos combinar 2: por mais que Ricardo tenha sido vice-governador por 39 meses, secretário de Desenvolvimento por 25 meses e sócio político importantíssimo do governo Casagrande III, o portfólio de realizações apresentado pelo emedebista é, por evidente, o portfólio de Casagrande, acumulado desde que o socialista voltou ao Palácio Anchieta para seu segundo mandato, em janeiro de 2019.
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