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Michael Haneke: o cinema contra as forças do mal

Diário de Notícias ·
Michael Haneke: o cinema contra as forças do mal

Se é verdade que, para o melhor ou para o pior, a noção de “autor” de cinema continua a ser encarada como um valor eminentemente europeu, não será menos verdade que o austríaco Michael Haneke (nascido em Munique, em 1942) é dos poucos que, para lá de tendências ou modas, continua a ser uma encarnação exemplar de tal noção.

Porquê? Porque possui uma filmografia que, de facto, espelha uma sofisticada visão do mundo , passando, curiosamente, pela produção televisiva sem ceder às suas retóricas, antes reforçando a consistência e a coerência do seu trabalho.

Saudemos, por isso, a notícia de uma retrospetiva integral de Haneke, incluindo, portanto, os títulos que permaneceram inéditos no circuito comercial.

Trata-se de uma iniciativa conjunta da Leopardo Filmes e da Medeia Filmes, arrancando na próxima quinta-feira, dia 17, em Lisboa (Cinema Nimas) e Porto (Teatro Campo Alegre); seguir-se-ão exibições em Braga (Theatro Circo), Coimbra (Teatro Académico Gil Vicente), Figueira da Foz (Centro de Arte e Espectáculos) e Setúbal (Auditório Charlot).

São 17 títulos — 12 longas-metragens para cinema e cinco filmes para televisão —, todos em cópias restauradas. 'O Laço Branco' (2009), ou a violência das hierarquias.

A perceção da obra de Haneke não pode ser desligada de vários momentos de consagração internacional, com destaque para as duas Palmas de Ouro que obteve em Cannes com O Laço Branco (2009) e Amor (2012) .

São filmes que possuem o poder enfático das histórias cujos particularismos sociais, simbólicos ou emocionais são também matéria de um universalismo genuíno, em nada dependente de estratégias de marketing ou aparatos mediáticos.

Sem esquecer que Amor arrebatou algumas dezenas de prémios, incluindo, em representação da Áustria, o Óscar de Melhor Filme Internacional.

A ação de O Laço Branco decorre numa aldeia (fictícia) do leste alemão, pouco antes da eclosão da Primeira Guerra Mundial.

Somos confrontados com uma teia de tensões marcadas pelas hierarquias sociais e geracionais, facto que levou algumas leituras do filme a apontarem as formas de controlo familiar, escolar e religioso como premonitórias do triunfo do nazismo, cerca de vinte anos mais tarde.

Não será, por certo, uma interpretação deslocada.

Ainda assim, importa sublinhar o facto de Haneke nunca ceder a paralelismos “automáticos”, mantendo-se como arauto de um depurado realismo (neste caso, fotografado num admirável preto e branco) que nos conduz a um princípio vital do seu universo: o mal não se manifesta a partir do exterior de um determinado sistema social, antes existe, de modo manifesto ou oculto, nos interstícios das suas estruturas. 'Amor' (2012): Emmanuelle Riva, com Jean-Louis Trintignant.

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Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em www.dn.pt — o conteúdo pertence a Diário de Notícias.

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