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A única vez que falei com Ana Paula Martins

Diário de Notícias ·

Tenho por princípio não falar de conversas privadas, mesmo quando não são realmente privadas, como é o caso desta, entre uma responsável por um hospital e uma jornalista.

Mas, ao saber que mais um hospital público — desta vez o Garcia de Orta, em Almada, que serve uma área densamente povoada — “descontinuou”, ou “suspendeu”, a consulta de interrupção de gravidez/gravidez não desejada e remete agora quem na zona queira abortar para a única unidade privada do país que efectua interrupções de gravidez, recordei o telefonema que em fevereiro de 2023 recebi de Ana Paula Martins, então presidente do Conselho de Administração do Hospital de Santa Maria, a propósito de um artigo que publicara, e creio justificar-se referi-lo.

No dito artigo, o terceiro de uma série sobre as dificuldades com que, 16 anos depois do referendo que em 2007 permitiu legalizar o aborto até às 10 semanas por vontade exclusiva da grávida , as mulheres se defrontavam no Serviço Nacional de Saúde quando queriam aceder a esse direito, o DN reportava o caso de uma mulher de 34 anos que contactara aquele hospital para marcar a primeira consulta para dar início ao processo de interrupção da gravidez, e, estando grávida de oito semanas, recebeu como resposta que só poderia ser atendida 16 dias depois .

Como nessa altura estaria ultrapassado o prazo legal de 10 semanas, Camila — foi esse o nome que o DN lhe deu — percebeu que não teria outro remédio senão abortar no privado.

Assim, Camila ligou para a Clínica dos Arcos, marcou e pagou.

O artigo foi publicado a 16 de fevereiro de 2023 ; ou no mesmo dia ou no seguinte, já não recordo, Ana Paula Martins ligou-me e, manifestando-se contristada, revoltada e solidária com aquela mulher, certificou que o hospital ia pagar o procedimento, perguntando se seria possível falar diretamente com ela, para lhe pedir desculpa de viva voz.

Na altura, fiquei sensibilizada com a atitude e com o tom da agora ministra, que falou mesmo com Camila (depois de esta me dar autorização para ceder o seu número).

Não é todos os dias — é aliás raro — vermos uma consequência tão rápida e tão satisfatória de uma notícia , e durante algum tempo olhei com simpatia para Ana Paula Martins devido a essa interação.

Quando no ano seguinte, após a AD ganhar as eleições de março de 2024, assumiu a pasta da Saúde, tive alguma esperança, mesmo conhecendo o sinistro cadastro do PSD em matéria de interrupção de gravidez, de que ela se predispusesse a fazer alguma coisa para melhorar a situação .

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Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em www.dn.pt — o conteúdo pertence a Diário de Notícias.

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