Morreu missionário Telmo Ferraz, fundador da Casa do Gaiato em Angola
Nascido em Bruçó, no concelho de Mogadouro, distrito de Bragança, Telmo Ferraz foi visto como "um verdadeiro missionário do bem" por aqueles com quem se cruzou, nomeadamente operários que construíram as barragens do Picote e de Miranda do Douro, nos anos 1950, por ter denunciado as condições desumanas de trabalho, o que lhe valeu a perseguição pelas autoridades da ditadura.
O padre Telmo Ferraz estabeleceu-se em Malanje, em 1963, como responsável da Casa do Gaiato que ajudou a construir de raiz, numa fazenda a cerca de 10 quilómetros da cidade, junto à estrada para Luanda
Com esta "sucursal" da Obra de Rua, fundada pelo padre Américo, Telmo Ferraz trabalhou no apoio a meninos com graves problemas familiares e sociais.
Numa entrevista à agência Lusa, em janeiro de 2018, disse que "pela Casa do Gaiato de Malanje, passaram cerca de dois mil rapazes, que ao longo de meio século, e após receberem a devida instrução escolar, se transformaram em ministros, generais, empregados bancários, empresários, advogados, entre outras profissões".
A Casa do Gaiato de Malanje acabou por ser construída com ajuda de um grupo de rapazes vindos de Portugal e que ali foram acolhidos, e que angariavam fundos, com ajuda do padre Telmo, pelas principais cidades do norte de Angola. Ao longo da sua vida, a casa passou por momentos conturbados, chegando a carecer de géneros alimentares e roupas.
Antes de ir para Angola, o padre da diocese Bragança - Miranda deixou, igualmente, uma marca profunda durante a construção da barragem de Picote, no concelho de Miranda do Douro, por ter testemunhado e denunciado as condições desumanas dos operários, no seu livro, "O Lodo e as Estrelas", que acabaria por ser proibido pela PIDE, a polícia política da ditadura.
Da obra literária do padre Telmo Ferraz destaca-se ainda "Rostos de uma Barragem, o álbum de Telmo Ferraz", livro lançado em julho de 2022, que reproduz 200 fotografias, a preto e branco, sobre a "dura realidade" da construção da barragem de Picote, na década de 1950.
O investigador Henrique Manuel Pereira, docente da Escola das Artes da Universidade Católica do Porto, que coordenou a obra, disse na altura à agência Lusa que este álbum constitui um documento único da época, comas suas 200 fotografias absolutamente inéditas, na sua maioria da autoria do padre Telmo Ferraz, legendadas pelo próprio.
"Este é um retrato dos inícios da construção da barragem de Picote, no Douro Internacional, até a sua inauguração. Portanto, estamos a falar de uma janela temporal de cinco anos.
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