Campus minados: crónica das mortes anunciadas
As universidades são baluartes do Ocidente. A instituição que hoje conhecemos, com as suas Faculdades, cursos, exames e títulos, desabrocha no Medievo, em geral das escolas nas catedrais. A primeira foi a de Bolonha (depois Oxford, Paris, Salamanca, Cambridge, Coimbra…), onde em 1088 a princesa Matilde de Canossa, aliada de Gregório VII, um papa sem papas na língua, patrocinou a Faculdade de Direito. Por lá andaram os marrões Dante Alighieri e Petrarca – florescia a convicção de que, para resolver litígios, eram melhores as “vias jurídicas” do que as “vias de facto’’.
No próxima quinta-feira, 27, a Simon and Schuster, desde 1924 uma das maiores editoras do mundo, lança no UK a autobiografia Great and Unfortunate Things , de Jason Arday, “o professor negro mais jovem da Universidade de Cambridge” (800 anos e 126 prémios Nobel). A autobiografia, que na verdade era uma auto-hagiografia, agora é uma auto-eulogia póstuma: o autor matou-se na sexta-feira passada. E o cadáver descambou numa múmia vampirizada pelas guerras culturais.
Não, não se trata de bater no ceguinho, mas de que em terra de cego, quem tem um olho é rei – e esta terra zarolha é cada vez mais o Ocidente. Filho de ganenses, Arday aos 3 anos terá sido diagnosticado com autismo, dislexia e epilepsia. E aprendido a falar só aos 11, e a ler e escrever aos 18. Dois anos depois fulgurava na faculdade. Aos 37 empoleirou-se nos cumes nevados da academia britânica, assumindo o concorrido magistério de Sociologia da Educação na augusta Cambridge.
Arday alegava ser também um atleta portentoso, um craque de futebol e um ás do snooker. E um santo: antes mesmo de balbuciar uma sílaba, já interrogava-se: “Porque há quem não tenha um teto? Porque há guerras?” Arrecadou £ 5,5 milhões para instituições de caridade, sobretudo a correr maratonas – 30 maratonas em 35 dias. Numa delas, fraturou uma perna, que inchou para o dobro do tamanho – mas completou os 42 kms da prova (literalmente, com uma perna às costas). Cavou poços em África; um fascista mascarado atacou-o duas vezes no campus com uma faca; enviaram-lhe uma bala e uma banana pelo correio; e uma cabeça de porco foi arremessada à porta da casa dos seus pais.
Aos poucos, aflorou o ceticismo sobre tantos prodígios. Primeiro, denúncias de plágio, incluindo a tese de dourado de Arday, com mais de 100 passagens iguaizinhas à de outro aluno. Cambridge emitiu um altivo comunicado sobre “a campanha racista contra a credibilidade de Jason Arday”. A Retraction Watch, entidade reconhecida pelo rigor e imparcialidade, comprovou os plágios, assim como o jornal “Times Of Higher Education”, num dossier de 63 páginas (cujo jornalista Arday denunciou à polícia). A polícia de Londres negou a história da cabeça de porco. O tal mascarado com faca não apareceu em nenhuma câmera de segurança da faculdade. Colegas de infância desmentiram que Arday fosse um autista não verbal até aos 11 anos. Em compensação, Arday afirmou ter participado de uma série de TV produzida 20 anos do seu nascimento. Com o escândalo, uma Cambridge relutante abriu uma investigação, e horas depois o professor renunciou ao seu cargo.
Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em observador.pt — o conteúdo pertence a Observador.