Chefe humanitário da ONU apela ao diálogo com fabricantes de drones "para garantir que compreendem riscos" de "tecnologia letal"
O coordenador humanitário da ONU, Tom Fletcher, apelou esta quarta-feira à comunidade internacional para dialogar com os fabricantes de drones e de outras armas tecnológicas, para que cumpram as suas obrigações, e defendeu a adaptação do sistema à "modernização da guerra".
Fletcher participou por vídeochamada, a partir da Ucrânia, na conferência de imprensa diária na sede da ONU, em Nova Iorque, e lamentou que mais de mil trabalhadores humanitários tenham sido mortos nos últimos três anos, ao mesmo tempo que pediu que sejam protegidos.
"Precisamos de um diálogo com as empresas envolvidas no fornecimento e na distribuição desta nova tecnologia letal, para garantir que compreendem realmente os riscos que estão a gerar e também as suas obrigações ao abrigo do direito internacional", afirmou o diplomata.
Fletcher assinalou que as zonas de guerra, desde a Ucrânia até à Somália ou à Faixa de Gaza, estão "saturadas pela utilização de drones contra áreas civis", e reconheceu que estes têm "utilizações positivas", mas que "muito do que estamos a ver é desumano e imprudente", afirmou.
Nesse sentido, defendeu um diálogo para "tentar garantir que a aplicação das normas acompanhe o ritmo da inovação letal", porque o mundo "teve de se adaptar repetidamente à modernização da guerra".
"O mundo (...) criou normas para proteger as pessoas contra as armas nucleares, as armas balísticas e as armas químicas. Essas normas aplicam-se a estes drones, mas não estão a ser aplicadas como deveriam", afirmou.
Fletcher revelou que, há uma década, assinou uma carta juntamente com intervenientes das áreas da tecnologia e da inteligência artificial (IA) para alertar para a velocidade de criação de riscos e pedir que estes fossem geridos "enquanto ainda há humanos no processo de gestão".
Disse também ter sido informado sobre munições controladas por IA, chamadas "loitering" ou munições vagantes, que aguardam numa zona de conflito até surgir um alvo, mas cujo esgotamento da bateria aumenta o perigo de escolherem um alvo civil, como um comboio humanitário ou da ONU.
"Naturalmente, foram anos muito, muito difíceis para o nosso trabalho em Gaza, no Líbano e noutros locais. Mas foram muito mais difíceis para os civis a quem servimos", salientou.
Acrescentou também que, apesar dos "golpes" sofridos pelo sistema humanitário da ONU, principalmente devido à retirada de financiamento por parte dos EUA, a organização continua a trabalhar e apelou a uma "reflexão séria" por parte da sociedade.
Fletcher reiterou que os países devem investigar os crimes contra os trabalhadores humanitários, mas salientou a importância de existirem "meios independentes" que documentem, divulguem e comuniquem os resultados das investigações, bem como cidadãos que "exijam padrões mais elevados".
"Se os Estados-membros não o fizerem, precisamos que os cidadãos lhes exijam responsabilidades, (...) que façam a gestão desses riscos antes que seja demasiado tarde. Para os meus colegas que perderam a vida, para tantas pessoas que estamos aqui para servir, receio que já seja demasiado tarde", afirmou.
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