A caminhar para a 23.ª hora
Um drone com explosivos junto a um avião de carga num aeroporto alemão, outros sobre a Polónia e a Roménia, cabos cortados no Báltico e, este mês, a lei de sanções que o Congresso norte-americano acabou de aprovar. Não são episódios soltos, são pontos numa curva, e a curva sobe. É a esta luz que proponho uma imagem, a da 23.ª hora. Não a última, note-se, mas a penúltima. Ainda há decisões por tomar, e é isso mesmo que a torna perigosa, porque quem julga ter tempo tende a gastá-lo.
Sei o risco de convocar a história, e convoco-a mesmo assim, com uma ressalva que é o contrário de uma desculpa. Putin não é Hitler, e a Rússia de hoje não é o Reich de 1938, uma potência em ascensão, com a maior indústria da Europa e uma ideologia que se propunha conquistar o mundo. É uma potência em declínio, com uma economia do tamanho da italiana, sem modelo universal para oferecer e numa dependência quase vassala face à China. Se a comparação fosse entre regimes, não se sustentaria.
Mas não é entre regimes. A lição de Munique nunca foi sobre a natureza de quem agride. Foi sobre o cálculo de quem cede. O que ali se aprendeu, tarde, é o que um poder expansionista conclui quando descobre que a agressão tem um preço suportável, que pode voltar a exigir, e mais. Da Geórgia à Crimeia, e desta à invasão em larga escala, lê-se uma sequência de testes à determinação europeia. E há uma inversão que costuma passar despercebida. Precisamente por ser uma potência em declínio, e não apesar disso, Moscovo tem incentivo para procurar vitórias baratas. Um império a perder terreno precisa mais de ganhos rápidos do que um império seguro de si. A fraqueza do adversário não é razão para descansar. É razão para esperar que ele tente o atalho.
A guerra já não começa apenas quando os exércitos cruzam fronteiras. Começa quando se procura corroer a confiança de uma sociedade, dividir os seus cidadãos e condicionar a liberdade dos seus governos, e o Conselho da União Europeia atribui à Rússia campanhas híbridas persistentes, sabotagem, ciberataques, manipulação da informação, para tornar a resistência difícil e a acomodação aparentemente sensata. É o mecanismo a que os soviéticos chamaram controlo reflexivo, e que Vladimir Lefebvre teorizou, influenciar a percepção do adversário para que ele escolha, julgando decidir por si, aquilo que convém a quem o manipula. Não é preciso controlar governos, basta conseguir que demasiados acreditem que resistir é inútil, que defender a liberdade é provocar e que a segurança se compra aceitando as exigências de quem ameaça. Quando corre bem, o alvo não se sente pressionado, sente que decidiu bem.
E há um momento em que o essencial deixa de ser saber quanto podemos ceder. Passa a ser saber o que deixaremos de ser se continuarmos a fazê-lo. A democracia, a liberdade individual e o direito de um povo escolher o seu futuro não podem depender da autorização de uma potência vizinha. Se aceitarmos essa dependência para os outros, com que fundamento recusaremos que amanhã nos seja imposta?
E é aqui que quero ser claro, porque há duas maneiras simétricas de errar. Uma é confundir a violência de Putin com uma capacidade militar ilimitada.
Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em cnnportugal.iol.pt — o conteúdo pertence a CNN Portugal.