35 anos de Independência da Ucrânia, uma data por que se luta
Em muitos países, um dos principais feriados é a sua data de independência, o momento histórico em que essa independência é alcançada ou recuperada. Portugal, curiosamente, assinala de forma mais autónoma a restauração da sua independência do que a conquista. Mas temos também a particularidade de muitos Estados assinalarem o dia da ruptura da dependência de Portugal nos vários continentes. Até as Maldivas assinalam como Dia Nacional a expulsão dos portugueses.
Falamos, como no caso português, da independência perante povos vizinhos. Neste caso, de uma recuperação da independência, porque a história e a cultura deste povo são milenares, tal como a sua capital. Kyiv aparece significativamente antes de Moscovo nas páginas da história.
1991 foi o recomeço de um caminho independente que, ao longo dos séculos, conheceu avanços, interrupções e sucessivas tentativas de dominação. Esse é talvez um dos maiores desafios para qualquer português compreender, sobretudo por vivermos num país com uma das fronteiras mais antigas da Europa.
A geografia também ajuda a explicar a distância da nossa experiência. Quem diria que, enquanto Portugal completava a conquista do Algarve, o neto de Genghis Khan cercava Kiev, em 1240.
Em 24 de agosto de 1991, o Parlamento ucraniano declarou a independência. Meses depois, quando os ucranianos puderam escolher livremente o seu destino, confirmaram-no de forma esmagadora: mais de 90% votaram pela independência no referendo de 1 de dezembro.
A Ucrânia escolheu ser independente. E a Rússia reconheceu essa independência. Em 1994, no Memorando de Budapeste, Rússia, Estados Unidos e Reino Unido comprometeram-se a respeitar a independência, a soberania e as fronteiras existentes da Ucrânia, no contexto do processo de desnuclearização ucraniano. São compromissos que hoje parecem escritos a uma distância quase absurda da realidade.
As mesmas autoridades russas que reconheceram a independência da Ucrânia são, desde 2014, responsáveis por uma guerra destinada a limitar ou destruir essa independência. A mesma Rússia que assumiu compromissos de respeito pela soberania ucraniana tornou-se a maior ameaça à sua segurança.
É por isso que o dia 24 de agosto não é apenas uma celebração. É uma afirmação. Noutros países, a independência é sobretudo uma memória. Uma data no calendário, uma cerimónia, uma bandeira hasteada, um discurso sobre o passado. Na Ucrânia, a independência é uma luta diária. É o presente de sacrifício e um futuro ainda incerto.
Perguntei a ucranianos o que significava para eles a independência. Muitos responderam liberdade. Poder viver na terra onde cresceram. Criar os seus filhos. Poder decidir o seu próprio destino. Ter um céu em paz.
Mas talvez a resposta mais arrepiante de ouvir tenha sido a de uma mãe. Ia com o marido a caminho de um memorial dedicado aos mortos em combate. Perguntei-lhe o que significava para ela a independência. Respondeu, emocionada: “Foi a causa pela qual o meu filho morreu.” Ia trocar a fotografia do filho, já gasta pelo tempo, e depositar flores.
Há momentos em que uma definição política deixa de ser uma palavra.
Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em cnnportugal.iol.pt — o conteúdo pertence a CNN Portugal.