Património cultural enquanto ativo do presente para territórios com futuro
O património cultural continua a ser pensado como herança, aquilo que recebemos do passado e devemos conservar para o futuro.
Essa dimensão é essencial, mas insuficiente.
O património é também um ativo estratégico do presente, capaz de produzir identidade, qualificar lugares, reforçar a coesão social e sustentar o desenvolvimento.
Em Portugal, porém, permanece uma distância, patente em instrumentos como o PNPOT e a Política Nacional de Arquitetura e Paisagem, que apontam para a necessidade de maior cultura territorial, participação cívica e gestão integrada.
Não existe património sem reconhecimento de valor.
Como sublinha Laurajane Smith, o património não reside simplesmente nas coisas, mas nos significados e usos que as sociedades constroem em torno delas.
Quando essa dimensão é ignorada, o território tende a ser reduzido a mero suporte de investimento ou consumo.
É aí que começam os processos de descaracterização, quando se perdem referências, banalizam-se paisagens e enfraquece-se a relação entre a comunidade e o lugar.
A investigação desenvolvida em diferentes processos territoriais permitiu-me observar que, quando as comunidades reconhecem nos lugares referências da sua história, tende a crescer a sua capacidade de apropriação social, participação e defesa do património.
Quando esse vínculo se enfraquece, torna-se mais difícil mobilizar a sociedade em torno do que se perde ou transforma.
A relação é recíproca.
O património contribui para construir identidade, mas uma identidade territorial consolidada favorece também a sua apropriação social.
Quando as comunidades reconhecem lugares, práticas ou memórias como parte da sua história, tornam-se mais capazes de os defender e de participar no futuro do território.
O património deixa de ser apenas objeto de tutela institucional e torna-se matéria de cidadania.
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