Mulheres e legitimidade no pós-guerra angolano
Na antecâmara do microensaio dedicado ao MPLA, à semelhança do tratamento conferido à UNITA , e procurando, ainda, estabelecer uma ligação com o trabalho de investigação desenvolvido por Christine Messiant sobre a sociologia do poder em Angola, recentemente homenageada pelo Centro de Estudos Africanos da Universidade Católica, decidi, assim, debruçar-me sobre o papel das mulheres na construção da legitimidade dos regimes do pós-guerra, a partir do caso angolano.
Em Angola, a cooptação das mulheres para a política não se deveu exclusivamente à sua participação na luta de libertação nacional, uma vez que no governo do pós-independência não constava nenhuma mulher enquanto ministra.
Em 1992, apenas 34 mulheres foram eleitas deputadas.
Nas eleições de 2008, registou-se um aumento de 48 mulheres face às eleições de 1992.
Este dado foi salientado como um dos aspectos positivos das eleições angolanas pelos observadores da União Europeia.
Os estudos estatísticos identificam uma correlação positiva entre o aumento da representação parlamentar feminina e o contexto de pós-guerra, para a qual contribuem os casos de Angola, de Moçambique (pós-guerra) e do Ruanda (pós-genocídio).
Este facto deveria suscitar-nos uma reflexão sobre o processo de cooptação e a sua relevância na construção de um campo de legitimidade dos regimes africanos do pós-conflito.
Seria essencial compreender quem são estas mulheres; onde e como são seleccionadas; e, ainda, qual é a sua circulação e actuação na estrutura do poder.
A guerra e a violência política estão, muitas vezes, associadas ao homem, enquanto a mulher preserva, por sua vez, uma imagem simbólica de paz, pelo que as mulheres podem estar a emprestar uma nova simbologia aos actores saídos da guerra.
Os presidentes José Eduardo dos Santos, “arquitecto da paz”, e João Lourenço, “campeão da paz”, elevaram a presença das mulheres na política angolana.
Outro aspecto positivo que poderá estar a funcionar em favor do regime prende-se com o facto de as mulheres não costumarem dar golpes de Estado na realidade africana, o que lhes confere, em teoria, um maior sentido de lealdade do que aos homens.
Poderíamos, assim, problematizar novos campos de construção da legitimidade dos regimes africanos, recorrendo ao modelo de investigação de Messiant, que não se limitava a classificar o regime angolano ou a encaixá-lo num rótulo previamente estabelecido.
Procurava, sobretudo, compreender os vasos comunicantes e a sua pulsação, que asseguravam a legitimidade do regime, mesmo quando este parecia encontrar-se num estado de pré-morte anunciada, eventualmente mais revelador de um diagnóstico equivocado do seu real estado de saúde.
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