Que Se Lixem As Eleições | Falar é barato
Os tristes espetáculos que abriram a edição 2026 do PREC (Processo de Rentrée Em Curso), ritual a que temos direito anualmente quer queiramos quer não, deixaram bem clara uma máxima que devia ter mais força na política nacional: se não há nada para dizer, mais vale ficar quieto e calado. Sobretudo, se não há nada de especialmente relevante a comunicar ao país, seria avisado não montar palco, não armar um arraial, e não focar em si todos os holofotes e não chamar toda a comunicação social para seguir discursos que mais parecem um frete do que o lançamento do ano político.
Bem sei que somos um país que estima algumas tradições, mas escapa-me a razão porque se insiste nesta romaria, que para agravar o desgosto agora acontece a meio de agosto, e não no fim do mês, quando é suposto ser tempo de rentrée. Este ano, salvo alguma coisa que me tenha escapado, houve um razoável consenso no bocejo em relação aos discursos de rentrée de Luís Montenegro e de José Luís Carneiro. Nenhum se apresentou com ideias mobilizadoras, com uma agenda refrescante ou com iniciativas capazes de sacudir o país do torpor típico de quem está, ou preferia estar, a tomar bebidas frescas com os pézinhos na água.
Percebe-se que tenham, ambos, invocado tempos jurássicos da política portuguesa durante as suas intervenções: tendo pouco a acrescentar sobre futuro, que ambos parecem encarar com cautelas e caldos de galinha, faz sentido que tenham dedicado alguma atenção à arqueologia política.
Montenegro assinalou os 50 anos da Festa do Pontal (que no início era mesmo uma festa, com caráter popular e consequência política) e, talvez iluminado pelo eclipse solar, dedicou-se a ler nas estrelas: quando se celebrarem os 60 anos, alguém olhará para trás e associará o PSD a “duas décadas que se destacam pelo desenvolvimento que deram a Portugal: a década de 1985-95, e a década de 2024 a 2034.” A obsessão de Montenegro pelo neocavaquismo começa a ter contornos que parecem pouco saudáveis, mas deixo isso para os especialistas. Noto apenas que o atual líder do PSD confia que daqui a dez anos continuará a haver Festa do Pontal. Uma previsão que tem uma pontinha de sadismo (ninguém merece…) e uma pitada de ilusão – a de que daqui a uma década alguém se importará com o que faça o PSD, admitindo que o PSD não seja entretanto devorado pelo populismo que o assombra à direita.
Quanto a José Luís Carneiro, talvez por não ter décadas prodigiosas para invocar a favor do PS (Guterres saiu muito antes de tempo; Sócrates saiu pela esquerda baixa; Costa saiu como sabemos…), aproveitou o palco algarvio para limpar as teias de aranha a uma doce recordação que já quase ninguém guarda na memória: o dia em que, num renhido derby de comícios de rentrée, no Pontal e na Pontinha, se percebeu que a década cavaquista tinha morrido de morte natural e o socialista António Guterres seria o novo primeiro-ministro.
“Foi aqui que em 1995 arrancou a Nova Maioria, e é aqui que vai arrancar a demonstração da força de uma alternativa para o país”, disse Carneiro.
Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em cnnportugal.iol.pt — o conteúdo pertence a CNN Portugal.