O fim do silêncio de Phoebe Bridgers
Quando há dias Phoebe Bridgers lançou Lost Weekend , o seu terceiro álbum a solo e primeiro em seis anos, o discurso inicial centrou-se na espera – era como se uma divindade particularmente alheia ao convívio com os humanos tivesse decidido por uma vez descer à Terra e deixar-nos uma oferenda. Não se tratava, portanto, apenas do lançamento de um disco, mas do avistamento de um OVNI, no qual tínhamos um particular investimento emocional.
Factualmente, esse buraco de seis anos em nome próprio existe: Phoebe não lançava discos a solo desde 2020. Mas não é propriamente como se Bridgers tenha estado todo este tempo afastada do meio musical, muito menos como se ela tivesse desaparecido do discurso pop – antes pelo contrário, o peso do seu nome apenas aumentou durante este período.
Até 2023, a cantora e compositora andou em digressão com Punisher , o disco que a revelou a uma audiência maior do que o pequeno culto ; nesse ano deu-se um acontecimento: as Boygenius, uma super-banda de que Phoebe faz parte ao lado de Lucy Dacus e Julien Baker, todas elas (até então) micro-estrelas do folk-rock, que só haviam lançado um EP em 2018, puseram cá fora o seu primeiro e até agora único disco, The Record , que tomou proporções inesperadas: elas pareciam estar em todo o lado, e todo o lado parecia prestar-lhes uma devoção que até então seria impensável. A digressão desse disco demorou todo um ano – no fim, foram nomeadas para seis Grammys e venceram três, para Best Rock Performance ( Not Strong Enough ), Best Rock Song ( Not Strong Enough ) e Best Alternative Music Album ( The Record ). Nada mau, para uma brincadeira entre amigas.
Neste período de tempo – nos tais seis anos – o estatuto de Bridgers mudou radicalmente, e não apenas por causa dos Grammys; nesse período, e aos olhos de um crescente número de fãs, ela transformou-se de cantora de indie-folk relativamente discreta numa espécie de língua franca da melancolia contemporânea. A bitola, o fio de prumo da tristeza LGBT, uma deusa, uma diva – a pessoa a cujas letras e melodias recorremos quando andamos aflitos de uma dor, amorosa ou existencial, de que não nos conseguimos livrar.
Não é – nunca é – simples explicar como é que alguém, neste caso ela, consegue (conseguiu) atingir esse estatuto. A sua voz doce e quase sussurrada tem aquele condão de soar suficientemente dorida para acreditarmos nas palavras; as palavras, por sua vez, dedicam-se quase exclusivamente aos falhanços – amorosos ou aquele de tipo de falhanços exclusivos, aqueles que ela sente existirem apenas em si mesma mas depois, quando postos no formato canção, têm milhares de fãs a rever-se neles. As canções tendem a ser lentas e tristes, com arranjos com o decoro apropriado à situação – o conforto que advém de aninhar nestas canções tornou-a um ícone.
Curiosamente, Lost Weekend parece, na primeira canção, querer fugir aos tiques habituais de Bridgers: The Outsider abre com auto-tune e depois vai parar a um lugar quase épico, graças aos arranjos; o auto-tune surge de novo no início da segunda canção, a ótima Lost Boys , que tem metais a assomar no refrão altaneiro.
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