As legislativas de 2028
Não leu mal o título. O frenesim eleitoral, como lhe chamou o Presidente da República, acalmou, mas é difícil de acreditar que as próximas eleições legislativas vão ocorrer no calendário normal: algures entre setembro e outubro de 2029. Os sinais mostram que não há condições políticas para a legislatura chegar ao fim.
A primeira das razões decorre dos resultados das últimas legislativas: os dois maiores partidos da oposição, PS e Chega, em conjunto, têm força para provocar a queda o Governo. É verdade que o chefe de Estado mudou a doutrina-Marcelo e que a não aprovação do Orçamento do Estado já não significa, automaticamente, a queda do Executivo. Mas nada poderá fazer, por exemplo, se a oposição aprovar uma moção de censura. Ou contrariar a não aprovação de uma moção de confiança, se o Governo a quiser suscitar como aconteceu em 2025.
Tudo indica que, pelo menos até ao outono de 2027, não haverá uma crise política. José Luís Carneiro impôs condições para o Orçamento deste ano que mostram que tem vontade de o viabilizar. Ou melhor, pouca vontade de o chumbar. Até porque precisa de tempo. As quatro condições que impôs para viabilizar o documento estão praticamente resolvidas: a revisão constituicional (o PSD vai negociar com o PS as questões estruturais); não mexer na Segurança Social (Governo já garantiu que não fará nesta legislatura); o apoio às vítimas das tempestades (já lá vão 3 mil milhões e garantia de continuar a apoiar); e não mexer na Lei de Bases da Saúde (não está em cima da mesa).
A lição que José Luís Carneiro tem a tirar do PS de António Guterres não é da Nova Maioria, de fazer uma rentrée no Algarve nem mimetizar a campanha das legislativas de 1995. O contexto era completamente diferente. Na altura o cavaquismo estava no fim, enquanto o montenegrismo está particamente no início. Há 30 anos PS enfrentava um novo candidato do PSD e com défice de notoriedade (Fernando Nogueira), agora teria de enfrentar o primeiro-ministro em funções. Além disso, Carneiro não é Guterres. E tempo mediático é diferente.
O grande ensinamento de Guterres, que pode ajudar Carneiro, é saber esperar pelo momento certo. Quando venceu de forma estrondosa as autárquicas de 1993, resistiu a pressões internas para vencer as eleições. Quando em junho de 1994 venceu as Europeias voltou a ser desafiado internamente a pedir eleições. É claro que o PSD tinha maioria, sendo impossível de o derrubar no Parlamento, mas o Presidente Soares não se importaria de demitir Governo (foi, aliás, acumulando pretextos para dizer que estava em causa o regular funcionamento das instituições — como a crise dos corredores). Mas Guterres resistiu. Apostou no desgaste do cavaquismo. Incluindo do cavaquismo sem Cavaco. E, por isso, ganhou.
Esse é o grande desafio de José Luís Carneiro: esperar pelo desgaste de Luís Montenegro para depois aparecer como única alternativa do arco da governação (jogando na instabilidade e medo do Chega) à AD. As sondagens favoráveis provocam, como é normal nos principais partidos da oposição, ansiedades. Daí que seja difícil, se os indicadores continuarem a ser positivos para o PS, que não haja a tentação de provocar eleições.
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