Sara Barros Leitão conta história da despenalização do aborto com histórias de quem o viveu
A atriz, dramaturga e encenadora Sara Barros Leitão vai estrear na sexta-feira, em Braga, o monólogo "Nós, Sozinhas", para circular pelo país nos próximos meses e contribuir para a discussão que antecipa os 20 anos da despenalização do aborto.
A peça estreia-se na sexta-feira, no pequeno auditório do Theatro Circo, em Braga, onde terá repetições no sábado e domingo, estando as três apresentações já esgotadas.
Em palco, sobre um campo de ténis, Sara Barros Leitão encarna quer mulheres que foram acusadas em tribunal de abortar, algumas já este século, quer juízes ou médicos, e através das palavras destas pessoas conta a história da Interrupção Voluntária da Gravidez (IVG) em Portugal e do esforço de décadas para que fosse despenalizada, mais de 30 anos depois da chegada da democracia, em 2007, após um segundo referendo sobre o tema.
"Nós usamos arquivos da literatura, de arquivos de jornal, recortes, a parte oral também, há muitos testemunhos orais que nos chegaram e tudo é real, não há nada que seja inventado na peça, é tudo real", afirmou à Lusa a atriz e escritora, que disse que contaram com a ativista Andreia Peniche na coordenação da pesquisa.
O campo de ténis que marca o cenário justifica-se pelo contar da história do Julgamento da Maia, em 2001, quando 17 mulheres foram julgadas pela prática de aborto, 15 das quais se remeteram ao silêncio e foram absolvidas.
Duas confessaram, uma em relação à qual estaria prescrito e outra acabou condenada a quatro meses de prisão (ou uma multa, que foi paga por movimento a favor da despenalização). A enfermeira no caso foi condenada e cumpriu tempo de prisão, tendo sido indultada pelo então Presidente da República, Jorge Sampaio.
Para contar o jogo político que antecedeu a despenalização da IVG em Portugal, em minutos, a peça recorre à figura do relato desportivo através do juiz da partida (de ténis).
No decurso da ação, a atriz junta as peças de uma estátua da justiça, uma mulher, de espada e balança nas mãos. Na base dessa estátua está um volume a representar o Código Penal, do qual são retirados cartões com perfis de múltiplas mulheres cujos casos são lidos.
"Não tenho filhos. Como podia eu tê-los nas minhas condições?", dizia uma delas, de um grupo diverso: com e sem filhos, mais jovens ou mais velhas, de recurso à IVG no estrangeiro e em território nacional, através de médicos profissionais ou de outras mulheres sem experiência.
Várias das mulheres elencadas contam ter estado à beira da morte, devido ao uso de objetos que, por exemplo, lhes perfuraram o útero.
"Acho que mesmo as pessoas que nunca fariam um aborto, que acham que não é para elas, a partir do momento em que se reaviva a memória do que é que são estes tempos, e se percebe que a ilegalização do aborto não vai impedir um aborto, vai só transformar [em] mais mortes, mais mães que deixam filhos órfãos. Vai [fazer com que haja] um retrocesso brutal em termos de saúde pública.
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