Ontem, hoje e amanhã
Nos Maias , em 1888, Eça de Queiroz resumiu o país explicando que, em Portugal, a civilização, tal como tudo o resto, se importa do estrangeiro. Apenas que depois, porque não foi feita para nós, tal como os fatos desenhados à medida de outrem, fica curtinha nas mangas. Em seguida, através de João da Ega, Eça remata ressalvando o essencial: porque é importada, ou seja, não é criada por nós, sai-nos caríssima em portes alfandegários. Por outras palavras, resume-se aquilo que os políticos mais afoitos ainda hoje chamam de uma crónica “falta de produtividade”.
De facto, esta ideia das mangas curtas, coisa própria da imitação provinciana, infelizmente, aplica-se como uma luva, esta já bem medida e servida, ao Portugal político e mediático que, a expensas do povo que vai rojando alienado da realidade, vive, mais do que de outra coisa qualquer, da imitação saloia deslumbrada com o progresso que, como Pulido Valente relembrava em 1990 na sua colectânea Às Avessas, apenas revela o vazio de quem, ao invés de se afirmar por aquilo que é, imagina-se resolvido fingindo ser aquilo que não é.
Infelizmente, é prática generalizada. No mundo das “figuras públicas” — o ícone máximo do sucesso social no Portugal contemporâneo —, os estrangeirados retornam imitando o estrangeiro “lá de fora” que “lhes deu mundo” e “abriu as vistas”, os arrivistas imitam aqueloutros que, por nascimento ou antecedência, já lá estão sentados à mesa do clube, os (bons) alunos imitam os professores — os maus nem sequer isso —, os políticos da juventude partidária imitam os já alçados à Assembleia, estes os da fila da frente que aparece na televisão e estes últimos os da televisão estrangeira.
Do lado de fora, e porque o mal é geral, nas feiras copiam-se as marcas, nos cafés as opiniões da TV, nos restaurantes da moda as receitas internacionais. Até nos nomes dos filhos, tal como nas roupas, nos carros e nas moradas, se copiam os das personagens das telenovelas. O colunista reescreve normalmente aquilo que leu no NY Times, o comentador repete o que ouviu no X de um “internauta” que cita o Economist, tal como o jornalista pergunta simplesmente o que lhe escreveram no teleponto, ditam no auricular, ou lhe exigiram na redacção.
Na universidade, a arte da imitação refina com o afinco que se cita com orgulho o que se escreveu “lá fora”. Em boa verdade, não é preciso escrever, ou sequer pensar, algo de original — pelo contrário, o triunfo advém de se colar o mais possível “ao que de melhor lá fora se faz”. O douto académico que bota faladura, apesar de já não ser aquele que, perante a questão, cospe nos dedos e, depois de os passar pela brilhantina, pondo as mãos no colete, de queixo levantado, cita o enorme académico que o precedeu, apesar de trajar moderno, casual como se diz em inglês, não deixa de pensar da mesma forma e fazer parte de uma enorme corrente que nos últimos 200 anos, por se propor a modernizar e alfabetizar as “elites” nacionais, granjeou o prémio maior de serem apenas conhecidos pelos seus dois apelidos.
Entretanto, aqui há novidade.
Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em observador.pt — o conteúdo pertence a Observador.