Na companhia de Michel Foucault
O filósofo francês Michel Foucault nasceu há 100 anos, mais precisamente no dia 15 de outubro de 1926.
A sua herança, imensa e multifacetada, aberta a continuadas releituras e pensamentos, talvez se possa “resumir” no título do primeiro volume da sua História da Sexualidade.
Ou seja: A Vontade de Saber (ed.
Relógio D’Água, 1994, tradução de Pedro Tamen).
Não exatamente a duplicação de um saber que pudesse estar solidificado nos anais milenares da história, antes um saber que se agita com as convulsões dessa história – um saber que acaba por fazer e refazer a própria noção de história, modificando os parâmetros do “homem”, porventura abalando as certezas da sua definição.
Lembrando um dos seus textos mais célebres – o capítulo de abertura de As Palavras e as Coisas (Edições 70, 2022, tradução de António Ramos Rosa) –, aí encontramos uma reflexão atualíssima sobre os poderes e limites do gesto artístico.
Através de uma detalhada e obsessiva contemplação de As Meninas , o quadro de 1656 em que Diego Velázquez retrata a família do rei Filipe IV de Espanha (com o pintor a imiscuir-se na cena), Foucault revê o compromisso, explícito ou não, da arte com o poder, nessa medida abrindo uma nova reflexão, sobretudo uma reflexão diferente, em torno da noção de humanismo.
"No centenário do nascimento de Michel Foucault, a sua herança parece tão longe, mas está aqui tão perto.” Numa entrevista com Madeleine Chapsal, publicada na revista La Quinzaine Littéraire , a 16 de maio de 1966 (o ano de publicação de As Palavras e as Coisas ), esclarece a sua resistência ao humanismo vigente (hoje, talvez pudéssemos dizer: televisivo).
São deles estas palavras: “Aquilo que me irrita no humanismo é que passou a ser a tela atrás da qual se refugia o pensamento mais reacionário onde se formam alianças monstruosas e impensáveis.” Foucault aponta mesmo o “coração humano” como uma abstração, enquanto o labor da sua “geração” (a palavra é dele) “quer ligar o homem à sua ciência, às suas descobertas, ao seu mundo, que é concreto.” Recentemente, descobri um filme magnífico sobre Foucault, capaz de construir de forma breve (52 minutos) um retrato que nos abre muitas e sedutoras perspetivas para percorrermos a sua obra.
Produzido pela empresa Les Nouveaux Jours Productions, de Nantes, realizado por Lise Baron, intitula-se Michel Foucault, le Philosophe et le Poisson Rouge (2024), foi difundido pelo canal France 5, integrando também o catálogo de France Télévisions.
Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em www.dn.pt — o conteúdo pertence a Diário de Notícias.