Antigo autarca comprou sepultura da mulher com fundos da Junta
"Confirma-se que a aquisição da cabeceira funerária se destinou à sepultura da falecida esposa do então presidente da junta, sendo manifesto que a realização de uma despesa dessa natureza viola os princípios da prossecução do interesse público e da legalidade", lê-se no relatório da auditoria a que a Lusa teve acesso.
O caso ocorreu em 2017, quando era presidente da Junta de Freguesia do Norte Pequeno Adroaldo Mendonça, que foi eleito pelo PS nos mandatos entre 2009 e 2021, e que em 2020 encabeçou a lista do Chega pelo círculo eleitoral de São Jorge às eleições legislativas regionais.
Na sequência de uma denúncia, apresentada em agosto de 2025, o Tribunal de Contas realizou uma auditoria e concluiu que a cabeceira em pedra, adquirida em 2017 pela Junta de Freguesia do Norte Pequeno, no concelho da Calheta, por 1.326 euros, se destinava à sepultura da mulher do autarca (que morreu em julho de 2016), localizada na freguesia do Norte Grande.
Questionado pelo TdC, o atual autarca do Norte Pequeno confirmou a aquisição da cabeceira pelo montante referido, mas disse destinar-se a uma sepultura no cemitério da freguesia.
Segundo o autarca, a despesa foi inscrita no orçamento como "reparação e manutenção do cemitério", mas não constavam do arquivo da freguesia as decisões de contratar, autorizar a despesa ou adjudicar a intervenção.
O atual presidente da junta de freguesia disse ter contactado Adroaldo Mendonça, que o terá informado de que a aquisição "foi motivada pela necessidade de substituir a cabeceira que se quebrou durante a aplicação do jato de areia, no decurso da realização de obras no cemitério", incidente do qual não há "qualquer documento de reporte", além de uma menção no recibo "escrita a lápis".
Já a agência funerária que vendeu a cabeceira alega que a mesma foi colocada no cemitério de Santo António, na freguesia do Norte Grande, no concelho das Velas, e que a maquete, aprovada pelo então presidente da Junta de Freguesia do Norte Pequeno, continha a identificação da sua mulher.
Em sede de contraditório, Adroaldo Mendonça assumiu "a total responsabilidade sobre o processo relatado", mas disse que a fatura referente à cabeceira da campa da mulher deu entrada na junta de freguesia, em fevereiro de 2017, "juntamente com outras da mesma empresa", à qual a autarquia comprava "habitualmente" materiais.
"Este erro de faturação foi na altura assumido por mim enquanto presidente, devido à minha condição psicológica afetada pelo falecimento da minha esposa. Ao tomar esta decisão, diligenciei no sentido de repor a respetiva quantia", adiantou.
O antigo autarca referiu, no entanto, que pouco tempo depois, no decorrer de obras de manutenção do cemitério da freguesia, foi partida, por acidente, a cabeceira de uma sepultura.
"Por se tratar de uma localidade pequena, conhecendo eu a família do falecido e mantendo a intenção de repor o valor anterior, decidi pagar pelos meus meios a nova cabeceira.
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