ONU: restaurar a confiança e impulsionar a transformação
Conselheiro em Segurança Internacional. Ex-secretário-geral-adjunto da ONU
A 81.ª Assembleia-Geral das Nações Unidas abriu oficialmente a 8 de setembro. O seu segmento de alto nível, que reúne em Nova Iorque chefes de Estado e de governo entre 22 e 28 de setembro, decorre sob o lema Restaurar a Confiança, Gerir a Transformação: uma ONU que entrega resultados para todos . Para uma organização em crise, embora insubstituível, o teste decisivo não está no vigor do lema, mas na capacidade de traduzir a atual geopolítica em decisões concretas. Num momento em que decorre a escolha do sucessor de António Guterres, os discursos deveriam concentrar-se em três prioridades, cada uma medida por factos, não por intenções: promover a paz, estabelecer uma governação multilateral da Inteligência Artificial e recolocar o desenvolvimento humano no centro da segurança internacional.
A primeira prioridade é a paz. Os números desmentem a narrativa de normalização. Em Gaza, o acordo de cessar-fogo de outubro de 2025 previa a entrada de 600 camiões de ajuda por dia. Estamos muito longe desse número. Uma parte substancial do pouco que entra é carga comercial e não ajuda humanitária canalizada pelas agências. É essa distância entre o acordado e o executado, não a existência do cessar-fogo em si, que define o sofrimento civil quotidiano.
No Sudão do Sul, o Alto-Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos documentou, num período de 17 dias em março, mais de 160 civis mortos e cerca de 99 poços de água destruídos ou envenenados. No Sudão – conflito distinto, entre as Forças Armadas Sudanesas e as Forças de Apoio Rápido –, o número de civis mortos desde 2023 ultrapassa os 59 mil, com 14 milhões de deslocados e 33,7 milhões de pessoas a necessitar de ajuda urgente.
Na agressão russa contra a Ucrânia, no Congo Oriental, no Sael e em Myanmar, os padrões repetem-se: mortalidade civil elevada, deslocações em massa, acesso humanitário negado, como instrumento de guerra.
A ONU não vai parar estas guerras a partir de Nova Iorque. Mas pode sair do segmento de alto nível com um compromisso mensurável: consignar uma percentagem fixa do orçamento das missões políticas especiais e de manutenção da paz à proteção de civis e à execução da agenda Mulheres, Paz e Segurança. Um processo de paz que não protege as mulheres e as crianças da violência sexual, do deslocamento forçado e da fome não é paz; é uma hipocrisia.
A segunda prioridade parte de uma convergência notável: em poucos dias de setembro, cinco vozes que raramente coincidem manifestaram a mesma inquietação sobre a Inteligência Artificial. A 12 de setembro, Dario Amodei, da Anthropic, publicou o ensaio We Must Pace the Frontier – cerca de 3800 palavras – defendendo um abrandamento deliberado do ritmo de desenvolvimento das capacidades da IA; Sam Altman, da OpenAI, aderiu ao essencial do apelo horas depois, e Elon Musk fez o mesmo.
Steve Bannon e Bernie Sanders – extremos opostos do espectro político norte-americano – juntaram-se ao ex-investigador da própria Anthropic, Jacob Coxon, numa Declaração para uma IA Pró-Humana .
Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em www.dn.pt — o conteúdo pertence a Diário de Notícias.