"Não sou apologista de perdoarmos um 'há anos atrás' só porque o dizemos muitas vezes. Está em primeiro lugar na minha lista de erro"”
É a língua que falamos todos os dias. E em que falhamos todos os dias. Esquecemos sinais de pontuação, juntamos palavras que não precisavam de lá estar. Quer exemplos? “Há anos atrás” ou “para além disso”. Tire o “atrás” e o “para”. Funcionam na mesma. Mas há outros exemplos para descobrir nesta conversa.
A revisora de texto e consultora de comunicação reflete também sobre o impacto da tecnologia na nossa escrita. Passamos o dia a mandar mensagens, mas “estamos, cada vez mais, a escrever pior e a escrever menos”. Por sua vez, a inteligência artificial “está a facilitar”, tornando mais difícil cumprir as regras fixadas na gramática.
A língua portuguesa é um instrumento que usamos todos os dias. Ainda assim, cometemos muitos erros. Porque é que não é fácil dominá-la?
Parece algo que já é inerente. Assumimos que, como é a nossa língua materna, não precisamos de nos envolver tanto com a aprendizagem desta língua, como acontece, por exemplo, com a língua francesa ou a língua inglesa. Parece que a nossa língua materna, a portuguesa, fica um bocadinho esquecida.
Acredito que sim. O meu objetivo era tentar que isso não acontecesse, para nos focarmos naquilo que é nosso e que devemos valorizar, que é parte do nosso património.
A sua página “Meia Dúzia de Erros” tem milhares de seguidores. Acredito que todos os dias lhe cheguem dúvidas e questões. O que é que as pessoas querem saber em relação à língua e aos erros que cometemos?
Criei uma comunidade muito gira. É um projeto com seis anos. E, cada vez mais, as pessoas, além de dúvidas, mostram muito interesse pela língua. É curioso ver, por exemplo, pessoas que estão na rua e que tiram uma fotografia a um erro num cartaz. Dizem-me “lembrei-me de ti”. Estas pessoas já estão mais sensibilizadas, com o olho mais atento, para estas questões.
Criou uma comunidade de nazis da gramática, fazendo uma tradução à letra da expressão inglesa ‘grammar nazi’…
Não adoro essa expressão, pela conotação que tem. Mas, sim, criámos uma comunidade sem erros. Eu costumo fazer o trocadilho do “100 Erros”. Já conta com 30 mil seguidores. E agora criei este livro, que surgiu um bocadinho no seguimento da página.
Era um passo natural compilar todo esse trabalho de pesquisa ao longo dos últimos anos.
Exatamente. A página “Meia Dúzia de Erros” acaba por ser uma ferramenta muito acessível, principalmente para os jovens. Mas, como é nas redes sociais, são dicas diretas que a pessoa vê, passa e já foi. Com o livro, a pessoa pode consultar, com 365 dicas, uma por dia, porque aprender a língua portuguesa não precisa de ser algo exaustivo. Antes um hábito, tem de ser aprendida diariamente.
Na minha lista de erros está, em primeiro lugar, o ‘há anos atrás’. É uma redundância, porque o ‘atrás’ não precisa de estar ali. O ‘há’ já remete para o passado. É, sem dúvida, o erro mais comum, mais frequente, que se ouve na língua portuguesa.
Há muitas questões que só conseguimos perceber que são um erro quando as estudamos. A que mais surpreendeu, nesse aspeto, foi o ‘para além disso’. É um pleonasmo. O ‘além’ funciona sozinho, não precisa do ‘para’.
Para a população geral, diria que é a vírgula no vocativo.
Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em cnnportugal.iol.pt — o conteúdo pertence a CNN Portugal.