O mel e o algoritmo
Nós, humanos, somos terrivelmente fáceis. Erasmo de Roterão sabia-o muito bem quando, em 1511 , em Elogio da Loucura , apresentou a Adulação como irmã do Amor Próprio e a definiu como o mel e o condimento de toda a relação humana, a parte mais integrante da eloquência, ainda mais da medicina e, em alto grau, da poesia. Há quem a desacredite, por ter sempre segundas intenções. Eu acho essa visão ingénua. A adulação levanta os ânimos esbatidos, alivia os doentes, arrebita os olhares tristes e vazios, produz um sorriso nos lábios secos e não beijados, aquece a alma de um perdido nas ruelas da vida. Sob o disfarce do louvor, faz com que cada um de nós seja mais agradável para si próprio, que é, no fundo, a essência da felicidade.
Quinhentos anos depois, engenheiros muito bem pagos em São Francisco chegaram exactamente à mesma conclusão. E codificaram-na.O ChatGPT, o Claude, o Gemini e os seus congéneres LLM não pensam. Não têm consciência. Não sentem. Entre tarefas, pedem-nos para esperar, alegando “a pensar” e essa pequena frase faz toda a diferença. Cria a ilusão de que do outro lado há alguém a magicar uma solução especialmente para nós. Na realidade, há matrizes matemáticas a calcular probabilidades estatísticas de palavras. Bonito, mas não é pensamento. É prestidigitação em escala industrial. E qualquer que seja o pedido, teimam em dar reforço positivo, em capacitar, em bajular com elegância. Não é acidente, é design. É Erasmo como produto pronto para ser usado pelo usuario. É o mel com subscrição mensal. A adulação sempre existiu porque responde a uma necessidade real. O problema nunca foi o mel. O problema é a dose. E é aqui que a medicina entra, inevitavelmente.
Dacher Keltner, cientista de Berkeley que estuda o assombro há mais de vinte anos, definiu-o como a experiência simultânea de dois estados: contemplar algo vasto, e perceber que as nossas estruturas mentais não conseguem encaixar o que estamos a ver. Essa sensação de pequenez, agradável e assustadora em simultâneo, predispõe-nos genuinamente a mudar comportamentos, convicções e crenças. É um dos mecanismos mais profundos de desenvolvimento humano. E é radicalmente incompatível com a adulação. Porque o assombro exige que nos sintamos pequenos. A adulação garante-nos que somos extraordinários.
Jovens com o telemóvel na mão contemplam a árvore do amor, o desenrolar da onda do mar e o primeiro instinto é fotografar para uma rede social. Não se perdem no assombro, documentam-no.
Basta deambular por qualquer jardim ou praia neste final de Verão para perceber o que se está a perder. Jovens com o telemóvel na mão contemplam a árvore do amor, o desenrolar da onda do mar e o primeiro instinto é fotografar para uma rede social. Não se perdem no assombro, documentam-no. E assim crescem numa vida construída sobre um ecrã, com uma quantidade extraordinária de conteúdo, com interface de adulação gratuita e programada por algoritmos que os acordam com notificações a interromper qualquer forma de pensamento que possam estar a ter. Marco Aurélio escreveu que a alma fica tingida nos nossos pensamentos. Estamos, crescentemente, a deixar outros tingir a alma dos nossos filhos.
Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em cnnportugal.iol.pt — o conteúdo pertence a CNN Portugal.