O Brasil que não cabe numa eleição
No sertão seco da Bahia, onde a terra estala sob o calor e a paisagem parece reduzida ao essencial, António Conselheiro pregou um dia que o fim do mundo estava próximo. Enganou-se quanto ao apocalipse. Talvez se tenha enganado menos quanto ao Brasil. A República nascida em 1889 em nome da ordem e do progresso passaria décadas a tentar decidir o que essas palavras significavam para um país demasiado grande e desigual para caber numa única ideia de modernidade. Em Canudos, em 1896, essa dificuldade acabou em guerra. Mais de um século depois, regressa à política brasileira com outros protagonistas e sob outra forma.
Os Sertões, publicado em 1902 por Euclides da Cunha , parece à primeira vista o relato de uma campanha militar. É mais do que isso. É a tentativa de compreender um país perante uma parte da sua própria população que não cabia na imagem que a República construíra de si mesma. Da Cunha chegou a Canudos com as certezas do seu tempo. A República representava a civilização, o sertanejo representava o atraso e o Exército levaria a ordem a uma região que o poder central via sobretudo como um território a corrigir. Depois viu o que aconteceu quando essas certezas encontraram uma comunidade disposta a morrer por uma fé que o Estado considerava absurda.
A distinção entre civilização e barbárie começou então a perder nitidez. Os soldados enviados em nome da República praticaram uma violência difícil de conciliar com a missão que diziam cumprir. Os habitantes de Canudos, tratados como fanáticos, revelaram uma resistência que o Governo não tinha previsto. Da Cunha percebeu a contradição e fez dela o centro do seu livro. A República conseguira destruir aquilo que não conseguira compreender. A vitória militar resolveu o problema imediato. Não respondeu à pergunta que o tinha produzido.
Canudos continua, por isso, a dizer qualquer coisa sobre o Brasil. A geografia mudou, as instituições mudaram e a população urbana ganhou um peso que seria difícil imaginar no final do século XIX. Mas a distância entre aqueles que se consideram intérpretes do futuro e aqueles que sentem que o futuro lhes foi imposto não desapareceu . Em 2026, essa clivagem percorre São Paulo, Minas Gerais, a agroindústria do Centro-Oeste, as periferias do Rio de Janeiro, as igrejas evangélicas e pequenas cidades onde a política nacional chega através dos impostos, dos preços e das oportunidades que não aparecem.
O sertão, nesse sentido, mudou de lugar. Euclides da Cunha percebeu que a terra não era apenas o cenário da história. Moldava expectativas, lealdades e a relação com o Estado. O sertanejo era, na sua célebre formulação, antes de tudo, um forte, não porque a vida lhe tivesse oferecido alguma vantagem especial, mas porque lhe tinha retirado quase todas.
A força era uma forma de sobrevivência. Onde o Estado chegava pouco, a comunidade e a religião ocupavam o espaço deixado vazio. Os Sertões é simultaneamente uma obra profundamente marcada pelo racismo científico do seu tempo e uma das mais fortes denúncias do massacre de Canudos. A grande força do livro, que Mário Vargas Llosa também ecoa , está precisamente nas suas contradições.
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