"Não sou a mesma pessoa". As dores, a fadiga, os medos, as sequelas. Como é viver depois de um cancro?
“Muda tudo. Não há nada que fique intacto. A pessoa não fica intacta, o corpo não fica intacto, as relações não ficam intactas. É um processo ao mesmo tempo muito físico e muito emocional. E não é um processo apenas individual, envolve as pessoas que estão à nossa volta, as relações, a família, o trabalho, acaba por impactar tudo.” É isto o que o cancro faz.
Joana Grilo tinha 38 anos quando lhe foi detetado um cancro na mama. “Ninguém está preparado para receber um diagnóstico de cancro”, diz. Joana nem sequer tinha idade para fazer rastreio, mas, como trabalha na área da saúde e como estava perturbada por uma série de diagnósticos entre pessoas conhecidas, pediu para fazer uma mamografia. Durante o exame, percebeu imediatamente o desconforto da profissional e fez logo imensas perguntas, não podia sair dali sem saber. Nesse dia, lembra-se que voltou para casa a pé, “meio adormecida” por aquela informação: tinha um tumor. A partir daí seguiu o caminho habitual: consulta de oncologia, um batalhão de exames, incluindo uma biópsia, depois “o pacote completo de quimioterapia”, uma cirurgia conservadora da mama com esvaziamento axilar porque já existiam metástases, e, por fim, “um pacote brutal de radioterapia”. Nisto, passou-se quase um ano.
Um dia a médica oncologista disse-lhe: “Pode ir à sua vida”. Era uma boa notícia. Mas Joana não se sentiu feliz. “Senti-me quase ofendida. À minha volta, estava toda a gente feliz e a respirar de alívio, mas eu não sentia o mesmo entusiasmo.” Durante os tratamentos existe uma urgência: combater o cancro e sobreviver. Joana sempre foi muito pragmática e encarou tudo como uma função que tinha de cumprir. Cumpriu-a o melhor que soube. Quando a médica lhe disse que podia ir à sua vida, Joana perguntou-se: como? “O cancro é um evento traumático que leva muito tempo a ser processado. Só me permiti navegar nas minhas emoções profundas quando me senti mais segura. Só então consegui apreender todas as mudanças que tinham ocorrido."
“O cancro é uma doença crónica, que não tem cura. Uma vez doente oncológico, para sempre doente oncológico”, diz agora, há cinco anos a viver sem cancro no corpo, mas com o cancro sempre presente na sua vida. Olhamos para uma pessoa e não vemos sinais exteriores da doença. O cabelo já cresceu, o rosto está sorridente. “A pessoa já não está tão descaracterizada dos tratamentos e isso passa, efetivamente, uma ideia de segurança que não é real”, diz. Algo tinha mudado: “Não sou a mesma pessoa”.
"Quando já está sem evidência de doença, assume-se muitas vezes que a pessoa está bem e que pode fazer a sua vida exatamente como era antes. E nem sempre é assim", explica a oncologista Isabel Fernandes, da CUF. "Muitas vezes há as sequelas das cirurgias ou há as sequelas dos tratamentos. Há doentes que vão precisar de ser medicados para o resto da vida." Mesmo que não haja limitações físicas decorrentes da doença nem outras doenças associadas, o corpo está diferente.
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