A escola está muito doente
Há cinquenta anos, a democracia portuguesa fez uma promessa importante: o lugar onde uma criança nasce não deveria determinar o lugar onde ela acaba. A escola pública seria o instrumento dessa promessa. O filho de uma empregada de limpeza e o filho de um advogado nascem em casas diferentes, com pais de escolaridades diferentes, livros diferentes nas estantes e possibilidades económicas incomparáveis. Mas à porta da escola o Estado começaria a diminuir essas diferenças. Não a eliminá-las, porque nenhuma escola elimina uma família. A diminuí-las.
Não falhámos em tudo, e seria absurdo negar o progresso que Portugal fez desde o 25 de Abril. Pusemos praticamente todas as crianças na escola, alargámos a escolaridade obrigatória, reduzimos o abandono, multiplicámos o acesso ao ensino superior. Entre 2000 e 2015 fomos uma das histórias de sucesso da OCDE: saímos do fundo da tabela e chegámos, em 2015, acima da média nas três áreas avaliadas. Essa foi a primeira metade da democratização da educação, e está feita.
A segunda metade é mais difícil. É garantir que estar na escola significa aprender, e que a escola reduz as desigualdades com que as crianças lá chegam em vez de as reproduzir. É nessa metade que estamos a falhar, e estamos a falhar de forma catastrófica.
Em 2015, os jovens portugueses obtiveram 498 pontos em Leitura, 492 em Matemática e 501 em Ciências. Em 2025 têm 462, 460 e 482. Em dez anos perdemos 36 pontos em Leitura, 32 em Matemática e 19 em Ciências. A OCDE estima que, por volta dos quinze anos, vinte pontos representam aproximadamente a aprendizagem de um ano de escola. É uma escala aproximada, que não deve ser aplicada mecanicamente entre países, mas dá a dimensão do que aconteceu: em Leitura perdemos quase dois anos de aprendizagem numa década, em Matemática cerca de ano e meio.
Estes não são pontos abstratos numa tabela internacional. Em Matemática, 35% dos nossos jovens de quinze anos não atingem o nível 2, o que significa que não demonstram ser capazes de pegar numa situação simples da vida real, representá-la matematicamente e resolvê-la — comparar dois percursos, fazer uma conversão monetária. Em Leitura, 28% não conseguem encontrar a ideia principal de um texto de dimensão moderada, localizar informação segundo critérios explícitos e refletir sobre a finalidade do texto. No topo, apenas 3% dos alunos portugueses chega aos níveis superiores, onde é preciso compreender textos longos, lidar com conceitos abstratos e distinguir facto de opinião a partir de informação implícita.
Uma democracia que deixa um em cada três jovens chegar aos quinze anos sem competências de leitura e de matemática elementares não tem apenas um problema educativo. Tem um enorme problema de desigualdade.
Tenho lido, desde que os resultados saíram, dezenas de opiniões a explicar que a queda é transversal à OCDE. Dizem-no como se fosse um argumento. Como se ter companhia no desastre o diminuísse. É complacência a funcionar como mecanismo de defesa: se o problema é de todos, não é de ninguém, e sobretudo não é de quem tomou decisões cá.
Comecemos por conceder o que há a conceder, porque é verdade.
Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em observador.pt — o conteúdo pertence a Observador.