Mais do que uma cadeira vazia: compreender o absentismo laboral para lá das estatísticas
O absentismo laboral continua a ser um desafio significativo para as organizações, numa realidade que não se observa apenas em Portugal.
Segundo dados disponíveis no Instituto Nacional de Estatística (INE), em 2023 a taxa de absentismo registou um aumento expressivo, passando de 2% (em 2022) para 3,6%, correspondendo a um crescimento de 1,6 pontos percentuais.
Este fenómeno, cujo impacto é naturalmente significativo para a operação das empresas, podendo condicionar resultados e contribuir para a sobrecarga das equipas, não pode, no entanto, ser analisado apenas com base nos números macro.
É necessário olhar para as estatísticas com atenção para perceber que, ainda de acordo com o INE, em Portugal uma grande parte das horas de absentismo (42%) se deve a doença, 10,7% dizem respeito à “proteção na parentalidade”, e finalmente reservando-se 35% a “outros”.
Ora, estes dados devem contribuir para alterar a perceção das empresas: estamos mais vezes perante questões de saúde e compromissos parentais, do que a lidar com falta de compromisso ou ausência de disciplina.
Por isso, antes de se desenharem políticas de retenção é preciso definir a premissa certa.
Mais relevante do que saber apenas quantas pessoas faltam e quantos dias, é crucial compreender os motivos intrínsecos que as levam a fazê-lo.
No mercado de trabalho português, pautado pela crescente escassez de determinados perfis, a permanência dos profissionais passou a ser um fator tão crítico quanto a sua contratação.
O cenário macroeconómico obriga, por isso, a uma leitura própria.
Ao contrário de outros países, Portugal experiencia uma taxa de desemprego abaixo da média europeia, na ordem dos 5,7%, de acordo com os dados do INE relativos a julho deste ano.
Ainda assim, e nesse mesmo mês, o país debateu-se com cerca de 18 mil ofertas de emprego por preencher, de acordo com os registos do IEFP.
O nosso paradoxo reside aqui: num mercado onde o talento disponível é diminuto, a fricção entre o que as empresas precisam e aquilo que os profissionais procuram e valorizam torna-se muito mais evidente e penalizadora.
Não se trata apenas de haver poucos profissionais; trata-se de um desajuste crítico de competências, expectativas e condições de trabalho oferecidas.
Também o absentismo deve ser analisado à luz desta realidade.
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