Toque de Mirdas
Por estes dias, na ocidental praia lusitana, discute-se neo-teologia pós-política pseudo-heróica do tipo circense, ou seja, futebol. Não falta nada. Há teologia, naturalmente, consubstanciada no fervor fanático com que todo o português crê nos diversos campos em disputa, tal como estes traduzem um carácter dogmático, sagrado e religioso, no sentido pós-moderno, até porque personificados em dois líderes de facção, um deles chamado apropriadamente Jesus, o outro, desta feita já ironicamente, chamado Cristiano, ou seja, aquele que segue Cristo, portanto Jesus. A base do enredo não poderia ser mais apropriada.
Também há política e ideologia. E porque se trata de assunto de tamanha relevância para o futuro da comunidade, todo e qualquer gato pingado com batimento cardíaco, incluindo papagaios, periquitos e patos bravos que pululam e grasnam pelas TV, tudo tem opinião na matéria, na maior parte dos casos revelando-se como um partidário obcecado, um simpatizante exaltado, ou um correligionário militante intolerante e radical. No final de uma semana de árdua discussão que move o país, deparamo-nos com duas falanges de fiéis intransigentes, discípulos cegos, dois exércitos de prosélitos extremistas, e sequazes dogmáticos, varrendo o país uma onda de paixão, devoção, verdadeira exaltação fundamentalista, entusiasta e ardente, transformando o que, por outras paragens, não passaria de um simples e anónimo fã zeloso numa panela de pressão pronta a explodir a cada momento em que é chamado ao debate, numa caótica ebulição sectária e inflamada, em muitos casos verbalmente violenta.
A coisa promete, dizem, mas, quando bem vista, não deixa de causar perplexidade. Aparentemente, a portugalidade, essa essência imaterial própria do português, brota em vagas sucessivas de exaltação, forçando o mundo civilizado a abandonar-se à resignada conclusão de que os “brandos costumes” lusitanos, esse mito que alumiou tantas almas durante tantos anos, quando confrontados com a heresia, a apostasia e a hipocrisia futeboleira — ou pelo menos aquilo que cada campo imagina como tal — não passam disso mesmo, um mito.
Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em observador.pt — o conteúdo pertence a Observador.