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As escandalosas mulheres

Observador ·
As escandalosas mulheres

Sempre que um artigo de imprensa recorta uma mulher a dizer-se vagamente contra o feminismo, é consabido: criam-se ondas de emoção que acabam a submergir por dias, ou por semanas, o nosso espaço público. É assim, sobretudo, se as ondas se propagam nesse meio sem resistência que é Agosto, mês culminante da apropriadamente chamada silly season , em que a necessidade geral de entretenimento se acusa com maior força – e que melhor entretenimento existe, para largos milhões de aborrecidos, do que a indignação, à custa de males reais ou imaginados?

Foi um verdadeiro caso de estudo de histeria de massas o das reacções ao discreto repasto de nove senhoras em Sintra. É de crer, não fora a notícia enfática e as honras de atenção dignas de um golpe de estado que se seguiram, que o movimento inaugurado naquele almoço teria permanecido na obscuridade em que nasceu, como outras tantas centenas de movimentos que nascem todos os anos para ir a algum lado e não vão a lado algum. Todavia, não posso deixar de registar que encontrei um cronista, em jornal contíguo, que julgou que a única histeria à vista era a das escandalosas mulheres. Alguns cronistas funcionam, de facto, como espelhos das coisas: reflectem-nas, invertendo-as. Este concreto diagnóstico de histeria aparece encurralado entre algumas dolorosas banalidades sobre o que é o conservadorismo, com o propósito de ilibar o conservadorismo de qualquer associação com as ditas senhoras, que não têm maneiras para entrar no clube. O cronista descreve o conservadorismo como uma atitude, uma pose, uma etiqueta, que, acima de tudo, nunca cai no mau gosto de ter convicções fortes. Em súmula, o conservadorismo, para esse cronista, é uma estética que só um desavisado, entre os quais temos de incluir muitos destes conservadores, poderia confundir com uma política. Mas esta é apenas uma irritação menor em face das irritações maiores que passo a narrar.

Se as virtudes democráticas se testam, principalmente, para com as ideias que diferem muito das nossas, metade do país em linha falhou o teste. As reacções foram uma demonstração generalizada de desonestidade intelectual, maquilhada em prosa mais ou menos lamurienta, de pulsões censórias mais ou menos racionalizadas, e de confusão mental entre esferas distintas de discurso.

Começou, logo, com um estratagema erístico brilhante, a fazer recordar um qualquer dos que Schopenhauer recomendava para ter sempre razão . Em todas as esquinas das redes se nos deparava o argumento de que as senhoras se puseram em embaraçosa contradição performativa, porque contestavam os direitos das mulheres que elas mesmas exerciam; e evocou-se, entre lágrimas de confusão, a mítica raça de mulheres que no passado lutou e sofreu para que estas agora pudessem exprimir o seu enfado com as liberdades conquistadas. Considerando tais refutações, as ideias das conservadoras pareciam preocupantes; e eu, preocupado, procurei as declarações destas mulheres a propor a revogação do voto feminino ou nova sujeição da mulher à tutela do marido. Não as encontrei, pela singela razão de nunca terem sido feitas, como uma sintética pesquisa revelaria.

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Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em observador.pt — o conteúdo pertence a Observador.

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