O crepúsculo de Merz
“Há uma regra não escrita nas democracias parlamentares: um líder sobrevive a maus resultados enquanto o seu partido acreditar que sobreviverá melhor com ele do que sem ele.”
Há qualquer coisa de wagneriano na política alemã destes dias. Não necessariamente a Cavalgada das Valquírias, demasiado triunfal para o momento, mas talvez o início do Crepúsculo dos Deuses, quando todos continuam aparentemente nos seus lugares, embora o espectador já tenha percebido que a ordem antiga começou a desmoronar-se. Friedrich Merz continua chanceler da Alemanha, continua presidente da CDU e continua a governar. Mas em Berlim há uma pergunta que deixou de ser sussurrada: durante quanto tempo?
No próximo domingo, os alemães não elegem um chanceler. Votam em Berlim e em Mecklenburg-Vorpommern, dois Länder profundamente diferentes e, em circunstâncias normais, duas eleições regionais. Desta vez serão também um plebiscito informal sobre a autoridade política de Merz.
Os números explicam o nervosismo. Em Berlim, a CDU, que em 2023 obteve 28,2%, aparece agora em torno dos 20%, praticamente empatada com a esquerda do Die Linke. A AfD ronda os 18%. Em Mecklenburg-Vorpommern a situação é ainda mais dramática: a sondagem da ARD coloca a AfD nos 38%, a SPD nos 33% e a CDU em apenas 7%. Seria um resultado devastador para o partido do chanceler.
Mas seria um erro interpretar domingo simplesmente como mais um capítulo da ascensão da AfD. A questão verdadeiramente interessante é outra. Mesmo vencendo em Mecklenburg-Vorpommern, a AfD enfrenta enormes obstáculos para transformar uma vitória eleitoral numa maioria governativa, devido à recusa dos restantes partidos em formar uma coligação com ela. Em Berlim, pelo contrário, quatro partidos disputam praticamente o mesmo espaço eleitoral e várias combinações governativas permanecem possíveis.
O problema de domingo, portanto, pode não ser quem ganha. Pode ser quem perde.
Há uma regra não escrita nas democracias parlamentares: um líder sobrevive a maus resultados enquanto o seu partido acreditar que sobreviverá melhor com ele do que sem ele. É quando essa equação se inverte que começam as conspirações. E na CDU parece estar a acontecer precisamente isso.
A imprensa alemã já atravessou uma fronteira significativa. Stern, Süddeutsche Zeitung e outros órgãos discutem abertamente possíveis sucessores. A Stern escreve sobre a disputa entre Hendrik Wüst e Markus Söder. A Süddeutsche acrescenta outros nomes à equação. E, apesar das manifestações públicas de apoio de dirigentes da CDU, a própria necessidade de as fazer demonstra a dimensão da crise.
Existe até uma pequena cena que talvez explique melhor a Alemanha de hoje do que dezenas de sondagens.
Recentemente, num evento eleitoral da CDU em Lehrte, perguntaram a Hendrik Wüst se também sabia ser chanceler. Wüst deixou a pergunta repousar, respondeu primeiro sobre outro assunto e regressou depois a ela com uma frase cuidadosamente construída: essa questão “não se coloca agora”.
Hendrik Wüst é provavelmente o nome mais óbvio de uma Alemanha pós-Merz.
Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em cnnportugal.iol.pt — o conteúdo pertence a CNN Portugal.