Crises económicas tendem a reforçar o peso dos ministros partidários nos Governos
As crises económicas não significam necessariamente uma abertura dos governos aos tecnocratas.
Em Portugal, os dados dos últimos 50 anos sugerem antes o movimento contrário: quando a inflação e o desemprego pressionam, os executivos tendem a reforçar o peso de ministros com maior enraizamento político .
É uma das conclusões do estudo “Quem governa Portugal? Perfis ministeriais em perspetiva comparada (1976-2025)”, coordenado por Marcelo Camerlo e António Costa Pinto para a Fundação Francisco Manuel dos Santos (FFMS), divulgado esta segunda-feira.
Mulheres são minoria em governos e têm maior exigência Ler Mais Os resultados do estudo contrariam, pelo menos em parte, aquilo que a literatura sobre recrutamento ministerial tem identificado.
Em períodos de crise, seria expectável que os partidos procurassem especialistas e independentes capazes de reforçar a credibilidade dos governos e, simultaneamente, afastar dos partidos parte da responsabilidade por decisões impopulares.
O próprio estudo parte dessa hipótese: “ a pressão económica é frequentemente associada, na literatura, a um aumento da probabilidade de nomeação de ministros não-partidários”.
Mas os dados portugueses contam uma história diferente.
Na análise estatística, os autores usam duas variáveis para medir a pressão económica: a variação anual da inflação e a taxa de desemprego.
A primeira procura captar o impacto imediato e visível do aumento dos preços e a perceção de instabilidade ; a segunda mede a fragilidade do mercado de trabalho.
E é precisamente aqui que aparece uma das conclusões mais relevantes do estudo.
A variação anual da inflação não tem efeitos estatisticamente significativos na nomeação de ministros externos ou peritos, mas está associada a um aumento da proporção de ministros políticos.
Já o aumento do desemprego está associado a uma redução dos políticos-especialistas e a um aumento estatisticamente significativo da proporção de ministros políticos.
Ou seja, perante maior pressão económica, não é o tecnocrata vindo de fora do sistema partidário que ganha necessariamente espaço.
É, antes, o ministro com capital político.
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