Reino Unido em plena revolução autonómica
O novo primeiro-ministro britânico, o trabalhista Andy Burnham, deu-lhes todas as pistas: insistiu na descentralização como alternativa ao poder centrifugador de Londres, defendeu as vantagens da determinação regional face à capita e ensaiou mesmo transferir o seu gabinete da tradicional Downing Street para uma qualquer rua de Manchester, onde é conhecido como o ‘Rei do Norte’.
Resultado: Escócia, País de Gales e Irlanda do Norte juntaram-se – num contexto em que pela primeira vez na história moderna as três regiões são governadas por partidos independentistas – e exigiram que o governo britânico tratasse de iniciar o processo de auscultação popular sobre a matéria, via referendos.
Isso não vai acontecer – o atual governo não tem qualquer mandato para iniciar o processo e Burnham não terá com certeza nenhum interesse em passar para a história como uma espécie de traidor do Reino Unido – mas as movimentações dos três partidos puseram a claro que a unidade do Reino não é um dado adquirido.
Para todos os efeitos, é mais um problema a acrescentar ao extenso rol de dificuldades por que passam todos os quatro (os três citados mais a Inglaterra), e onde constam a inflação (3,1%), os juros da dívida soberana (5,37% para as yelds a dez anos), a própria dívida soberana (94,1% do PIB), o défice das contas públicas (4,2%), a perspetiva de um crescimento muito lento (entre 0,9% e 1%), a erosão salarial, a desarticulação do Estado social (principalmente na saúde), a queda das exportações (1,8% em 2025) e por aí adiante.
Um favor à extrema-direita… Foi uma ‘desatenção’ do primeiro-ministro – como lhe chamam alguns analistas – que vai marcar as próximas eleições gerais (que deverão ocorrer até agosto de 2029) e que tem tudo para correr mal aos trabalhistas.
De facto, o movimento lançado pelas três regiões ‘rebeldes’ resultou num assunto que a extrema-direita liderada por Nigel Farage (líder do Reform UK) se apressou a usar em seu favor.
Deixando de lado a evidência mais clara (o facto de o Brexit ter sido um desastre para a economia do Reino Unido), Farage ‘cavalgou’ o momento, acusando os independentistas “célticos” de usarem a retórica constitucional e o pretexto do Brexit para desviarem as atenções dos falhanços na governação (a trabalhista e antes dela a conservadora) e na gestão dos serviços públicos.
O extremista tem feito uma forte campanha em territórios como o País de Gales e a Escócia com uma agenda assumidamente unionista, mobilizando o eleitorado que se identifica como estritamente britânico para combater o que apelida de “nacionalismo divisivo”.
E aproveitou para atacar Burnham, acusando o governo trabalhista de ser brando e de abrir as portas ao fim da União ao admitir debates sobre novos referendos.
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