A cidade também tem género
Há pouco tempo, um artigo da Monocle sobre o Reina, em Toronto (“ What can you expect from an all-women-designed building? Architecture that prioritises community ” escrito por Andrew Tuck), chamou-me a atenção por uma razão que vai muito além da arquitetura do projeto: a liderança maioritariamente feminina esteve associada a uma forma particularmente atenta de pensar a vida que acontece dentro e à volta do edifício.
Quem desenha a cidade não desenha apenas edifícios.
Define, em grande medida, a forma como vivemos.
É uma ideia que me tem acompanhado cada vez mais no meu trabalho entre a arquitetura e a promoção imobiliária.
Não acredito numa “arquitetura feminina” enquanto linguagem ou estética – tenho a mesma formação que os meus colegas homens e “bebo” das mesmas fontes de inspiração e pesquisa –, mas a diversidade de perspectivas aporta valor e enquanto mulheres trazemos certamente novas formas de olhar para os edifícios e discussões diferentes para cima da mesa.
Ciente de que um edifício gera valor através da área que vende (estamos constantemente a melhorar nos nossos projetos o ratio entre área vendável e espaços comuns em prol desse mote), penso que também gera valor a qualidade da experiência que proporciona, a relação que estabelece com a rua, a capacidade de servir diferentes formas de viver.
Temos tido clientes que acreditam nisso e oportunidade de pensar projetos ”fora da caixa”, mas este artigo sobre o Reina é muito curioso como um projeto moderno de promoção imobiliária para gerar lucro é também verdadeiramente inclusivo – lembrou-me muito tudo o que sabemos sobre como foram desenvolvidos os projetos do SAAL em Portugal nos anos 70, precisamente com muita discussão com a comunidade sobre como deveria ser desenvolvido o projeto e como isso influenciou o desenho de Siza, na Malagueira.
Talvez seja por isso que a conversa sobre mulheres na arquitetura e no imobiliário não deva terminar na representatividade.
O que me interessa é outra coisa: o que acontece quando mais mulheres participam nas posições onde as decisões são tomadas? Porque quem lidera um projeto também define as perguntas que são feitas.E as perguntas acabam por definir o espaço.
Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em www.dn.pt — o conteúdo pertence a Diário de Notícias.