Resistência Académica
Comecemos por relembrar duas características fundamentais dos movimentos populistas a cujo desenvolvimento temos assistido no eixo transatlântico na última década.
Se não estão no poder, alimentam as ondas de insatisfação, apresentando-se como antissistema (“drenem o pântano”, dizia Trump em 2016) e tentam consolidar o seu apelo eleitoral através da deturpação e simplificação das mensagens, numa dinâmica de visibilização on-line e nos ciclos noticiosos que passa pela dupla lógica do bode expiatório e da vitimização, sempre testando os limites do inaceitável e querendo chocar e perturbar os ‘inimigos’.
Como é sabido, o engodo é aqui performativo.
Criam a sua própria relevância ao invadir o espaço público , e manter-se sempre no centro da conversa.
Esta dinâmica de provocação da indignação tem como correlato um aspeto a que por vezes se presta menos atenção, mas que não deixa de ser central: o seu anti-intelectualismo.
A razão é fácil de entender.
A lógica de manipulação das emoções é avessa ao pensamento crítico e às competências de uma reflexão lenta e baseada nos factos.
Não espanta, por isso, que quando chegam ao poder tendam a eleger as instituições universitárias e científicas como um dos seus alvos, sobretudo quando por trás destes movimentos estão tendências autocráticas ou iliberais.
Vimo-lo no Brasil, com Bolsonaro, e nos Estados Unidos , com Trump.
No limite, e como o caso da Hungria durante o domínio de Orbán demonstrou amplamente , é possível minar uma democracia a partir de dentro.
Isso pode ser feito controlando os tribunais, a fórmula de financiamento dos partidos, ou atacando a autonomia da imprensa e das Universidades – pense-se, no caso húngaro, na expulsão da Central European University .
Nesse período, de resto, as ações de intimidação de grupos organizados de extrema-direita eram frequentes, visando opositores políticos, jornalistas, minorias e a comunidade LGBT.
A invasão da Rádio Universidade de Coimbra Por que razão é o contexto acima apresentado importante? Porque é neste pano de fundo que se deve entender a invasão à Rádio Universidade de Coimbra (RUC), na passada segunda-feira, por parte de duas deputadas eleitas pela variante portuguesa desta tendência internacional.
Era a estreia do programa “Ampulheta”, descrito como um programa de debate político entre jovens das juventudes dos partidos que têm assento na Assembleia da República, em esquema de rotatividade.
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