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O confronto na cultura de cancelamento

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O confronto na cultura de cancelamento

A polémica em torno de Sidney Sweeney é um exemplo revelador da transformação que atravessa a direita e a esquerda contemporâneas. Calendários de bombeiros seminus são vistos como divertidos, fotografias de atletas como Megan Rapinoe ou Serena Williams nunca provocaram crises morais, e a exposição do corpo em campanhas públicas é, em geral, tratada como irrelevante. Porém, quando Sidney Sweeney decide mostrar o seu corpo, instala‑se um escândalo: fala‑se em “perversão”, “indignidade” e “sexualização do desporto feminino”. A reação não é proporcional ao gesto, mas à identidade de quem o pratica. O problema não parece ser a nudez ou o respeito pelo corpo feminino; o problema parece ser quem se despe – e se essa pessoa é politicamente conveniente para quem se indigna ou apoia.

Este puritanismo seletivo é uma das faces da cultura de cancelamento que a esquerda desenvolveu ao longo das últimas décadas, mas que a direita passou anos a denunciar e que hoje reproduz com igual fervor – ainda que em sentido inverso. O caso Sweeney torna isso evidente: a esquerda reage com indignação moral, denunciando “perversão”, “indignidade” ou “sexualização do desporto feminino”, enquanto a direita a transforma imediatamente num símbolo anti‑woke, celebrando a mesma atitude como expressão de liberdade individual e resistência cultural.

Por outra palavras, o que ontem era celebrado pela esquerda como autonomia corporal passa a ser condenado quando protagonizado por alguém que não se enquadra no seu imaginário político; e aquilo que a direita antes criticava como “exposição indevida” passa a ser defendido quando quem o pratica é útil para a sua narrativa contra o progressismo identitário. A mesma atitude é lida de forma oposta consoante o campo ideológico: indignação quando vem do adversário, aplauso quando vem do aliado.

Portanto, o que este episódio revela não é um debate genuíno sobre nudez, sexualização ou respeito pelo corpo feminino, mas a aplicação seletiva de critérios morais conforme a identidade política de quem age. Não há qualquer princípio coerente aqui. Apenas uma moralidade instrumental, moldada pela conveniência tribal do momento.

O mesmo padrão surge noutra área ainda mais grave: a tolerância a comportamentos que a própria direita dizia considerar intoleráveis. Uma sondagem recente nos Estados Unidos revelou que dois em cada três votantes MAGA apoiarão o candidato republicano mesmo que este tenha sido acusado de agressão sexual. Nada disto é surpreendente. pois muitos dos mesmos eleitores que hoje se indignam com determinados comportamentos votaram em Donald Trump, apesar de este ter sido condenado num processo civil e obrigado a indemnizar uma mulher por abuso sexual e difamação.

A mensagem implícita é devastadora: desde que o agressor seja republicano, existe uma extraordinária capacidade para relativizar aquilo que, se fosse praticado por um adversário político, seria apresentado como prova definitiva da sua indignidade moral.

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Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em observador.pt — o conteúdo pertence a Observador.

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