Maria ainda junta a vida que a água levou três anos após cheias em Maputo
Com o início da época chuvosa em Moçambique, Maria Sambo, 54 anos, recorda a madrugada em que as cheias de 2023 em Maputo arrastaram a casa onde criou seis filhos, enquanto ainda tenta reconstruir a vida.
"Acordei, vi que a água entrou dentro, entrou mesmo dentro, não deu chance.
Só acordei, desliguei o contador, comecei a carregar as coisas", conta à Lusa Maria Sambo, à sombra da estrutura de lona erguida na parcela de terreno que recebeu em Nsime, na localidade da Katembe, a cerca de sete quilómetros do centro da cidade de Maputo.
Dali observa o vaivém dos vizinhos num bairro improvisado que se tornou refúgio para cerca de 100 famílias deslocadas pelas cheias de 2023, oriundas de Magoanine A, Magoanine C e Hulene B, bairros onde a água destruiu em questão de horas casas, bens e histórias de resiliência e superação.
Maria Sambo ainda fala das cheias como quem tenta pôr ordem em memórias que o tempo não conseguiu apaziguar.
Antes de a água invadir a casa onde vivia, em Magoanine A, nos arredores de Maputo, na madrugada de 17 de março de 2023, sustentava sozinha seis filhos com a venda de frutas, numa rotina construída ao longo de anos e desfeita em poucas horas.
Lembra com tristeza que a fuga foi apressada e a prioridade deixou de ser salvar bens e passou a ser encontrar um lugar seguro para os filhos.
Para trás ficaram a casa, os móveis e a banca de frutas que garantia o sustento da família.
"Eu vendia frutas, tudo que era fruta", conta Maria, lamentando ter perdido a mercadoria que sustentava os seis filhos enquanto procurava um lugar seguro para a família "durante aquele sofrimento".
O lugar seguro que procurava chegou dias depois sob a forma de um centro de acolhimento criado para receber dezenas de famílias afetadas pelas intempéries.
Pensado como resposta de emergência, o espaço acabaria por ser a casa de Maria durante três anos, numa convivência forçada com outras famílias que, tal como a sua, tinham perdido quase tudo para a água.
"Viver de vida do centro é muito difícil (...), aguentámos, porque a pessoa que não aguenta é porque tem outro sítio onde pode ir", conta, baixando o olhar ao recordar os três anos passados no centro de acolhimento, marcados pela falta de privacidade, pelas discussões constantes e pela incerteza sobre o futuro.
A permanência prolongada acabou por alterar também a dinâmica familiar.
Dos seis filhos que criou praticamente sozinha, três já não vivem consigo e hoje partilha com três filhos e uma neta um abrigo de lona erguido na parcela atribuída em Nsime, um espaço modesto, mas que lhe devolveu algo que diz ter perdido durante os anos no centro: a privacidade.
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