Quanto vale um bilhete de cinema?
O cinema é uma arte ou uma indústria? A pergunta interessa-me muito pouco (ou nada), quanto mais não seja porque a resposta parece-me tão ancestral quanto cristalina e, em boa verdade, muito pouco polémica.
Basta substituir “ou” por “e” – o cinema é uma arte e uma indústria.
Entretanto, os dinheiros do cinema são frequentemente tratados como emanações de um mundo alternativo, sem contrastes, nem contradições, ao mesmo tempo que nenhuma perturbação emerge do facto de as forças dominantes no espaço televisivo promoverem a secundarização desse mesmo cinema, a par da obscena acumulação de novelas e programas de Reality TV.
Dito de outro modo: os dinheiros do cinema são observados como uma evidência abstrata, sem qualquer relação com os factos do presente e as memórias da sua própria história.
Eis a notícia da semana: Homem-Aranha: Um Novo Dia tornou-se o filme mais rentável de sempre nas salas dos EUA: ao fim de 47 dias de exibição, acumulou 936,773 milhões de dólares, superando o anterior recordista, Star Wars: Episódio VII - O Despertar da Força (2015), com 936,662 milhões.
Os números falam por si? Sim, até certo ponto.
Resta saber como é que os pomos a falar.
Tais valores não podem ser tratados como absolutos – importa não esquecer o respetivo contexto histórico e social.
Não é uma ciência transcendental, antes um exercício de esclarecimento que vários espaços da internet nos facultam (exemplo: boxofficemojo.com ).
Trata-se de ajustar os números das receitas em função de diversos fatores económico-financeiros, do preço dos bilhetes aos valores da inflação – Lifetime Adjusted Grosses , segundo a expressão anglo-saxónica.
Ora, de acordo com tais ajustes, as receitas daquele episódio de Star Wars valem até, em números correntes, um pouco mais do que aquilo que este Homem-Aranha conseguiu (936 milhões de 2015 representam 1013 milhões do presente).
Mas a questão não é essa.
Os mesmos ajustes permitem-nos perceber que o filme mais rentável de sempre no mercado americano continua a ser E Tudo o Vento Levou (1939): os seus 200 milhões correspondem, aqui e agora, a 1895 milhões, contas redondas, o dobro deste Homem-Aranha – as receitas que já obteve colocam-no, de facto, em 12.º lugar do top , atrás de títulos como Música no Coração (1965) ou Branca de Neve e os Sete Anões (1937), que ocupam, respectivamente, o 3.º e o 10.º lugares.
Não pretendo esconder que encaro os filmes de super-heróis das últimas duas décadas, em particular dos estúdios Marvel, como uma reconversão infeliz dos valores clássicos de Hollywood, gerando, na maior parte dos seus títulos, um trágico empobrecimento narrativo e simbólico.
Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em www.dn.pt — o conteúdo pertence a Diário de Notícias.