22 anos de casa não garantem mais 90 minutos
Há qualquer coisa de fascinante no consenso nacional criado em torno da polémica entre Cristiano Ronaldo e a Seleção Nacional.
De repente, Portugal descobriu uma série de princípios de gestão que, aplicados ao futebol, parecem reunir uma maioria quase absoluta: ninguém está acima da equipa, não existem lugares cativos, aquilo que fizemos no passado não nos garante automaticamente um lugar no presente e cabe a quem lidera decidir quem joga em função daquilo de que a equipa precisa naquele momento.
Cristiano Ronaldo deixou a concentração da Seleção depois de ter sido suplente não utilizado frente à Noruega.
As circunstâncias concretas que levaram à sua saída continuam a ser discutidas e há versões diferentes sobre aquilo que terá sido acordado entre jogador e treinador.
Não pretendo discutir se Jorge Jesus esteve bem ou mal.
Muito menos diminuir Cristiano Ronaldo, cuja importância para o futebol português dificilmente precisa de defesa.
Interessa-me outra coisa.
Interessa-me perceber como conseguimos aceitar tão facilmente, no futebol, uma ideia que tantas dificuldades temos em aceitar nas organizações: o passado merece reconhecimento, mas não pode ser proprietário do futuro.
Cristiano pode ter sido o melhor jogador português da história.
Pode ter marcado centenas de golos, decidido jogos impossíveis e carregado durante anos uma parte significativa das expectativas de um país inteiro.
Nada disso significa, automaticamente, que tenha de jogar o próximo jogo.
E aparentemente percebemos isso enquanto nação.
Aliás, repetimo-lo há vários dias seguidos com uma enorme convicção: “a Seleção está acima de qualquer jogador”, “não há lugares cativos”, “quem decide é o treinador”.
Concordemos ou não com a decisão concreta, o princípio parece perfeitamente razoável.
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