A propósito da memória digital
O meu avô Aureliano, médico de profissão, avô por via paterna, tinha a fotografia como a sua grande paixão. Fotógrafo amador, são dele as melhores memórias da família de um certo tempo em que ele era o patriarca. Como dermatologista, construiu ao longo de décadas um espólio impressionante de fotografia médica, que guardava em diapositivos meticulosamente organizados. Penso que uma das suas fotos lhe valeu um prémio internacional, que o levou à Suíça durante um mês. Na casa da minha avó materna no Douro, as paredes tinham retratos de pessoas que nunca conheci, familiares com histórias que me foram contadas, mas que hoje já esqueci, e não faz mal, a vida mudou, e essas histórias ficaram com quem as viveu, porque a vida é efémera e são poucas as coisas que merecem perpetuar-se na memória do tempo. As paredes de casa dos meus pais permanecem forradas de livros, que contam histórias, e são elas a fonte de memória que vale a pena guardar, a par do que permanece perdido em gavetas que por vezes tenho a curiosidade de abrir.
Li algures, numa revista, que não temos uma câmara dentro da cabeça, que recordar é inventar outra vez, e pensei no meu avô e na minha avó. De cada vez que víamos os álbuns, algo de novo aparecia, e não garanto que as versões das várias histórias mantivessem grande coerência entre si. Esquecemos, graças a Deus, esquecemos, e é o esquecimento que nos vai limando as arestas dos dias, que deixa morrer com decência as pessoas que fomos, porque uma memória que nada perde, li isso também, acaba por não compreender coisa nenhuma, afogada na minúcia e na análise de cada segundo, de cada frase, de tudo e de todos.
No tempo em que vivemos, de repente, decidimos mudar as regras do jogo, e está a tornar-se consensual que não é nada útil esquecer. Gastam-se triliões, destrói-se o ambiente, consome-se energia e água, fazem-se guerras na luta por “matérias-primas raras”, porque temos de construir essa grande utopia da memória permanente e da capacidade de correlacionar tudo com qualquer coisa, porque parece, é daí que vai nascer um Homem Novo e um futuro mais brilhante para a Humanidade.
Estamos a construir máquinas que guardam tudo, sem cansaço, sem pudor, a fotografia de 2009 ao lado da fotografia de ontem, com a mesma luz, os mesmos rostos, a mesma tarde intacta, e não só guardam, atenção, contam, resumem, escolhem por nós, respondem-nos com uma vozinha solícita que junta os cacos e nos devolve uma história coerente sobre quem fomos, coerente e plausível, note-se, porque a verdade, para estes engenhos, é um detalhe que só os tolos ainda valorizam. E a história ajusta-se a quem pergunta, ao momento, ao contexto, ao gosto do freguês. Dantes, uma carta dizia o que dizia, um retrato mostrava aquele instante e não outro, os papéis eram teimosos como as tias velhas, não mudavam para nos agradar.
Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em observador.pt — o conteúdo pertence a Observador.