China tem menos margem para repetir solução para crise da dívida
A China tem atualmente menos margem para transferir para as famílias os custos da elevada dívida do que há duas décadas, quando os aforradores financiaram indiretamente o saneamento do sistema bancário, defendeu um economista .
Num artigo publicado na terça-feira pelo `think tank` Carnegie Endowment for International Peace, Michael Pettis, professor de Finanças na Universidade de Pequim, argumentou que a forma como a China resolveu a crise bancária do início dos anos 2000 contribuiu para alguns dos principais desequilíbrios que afetam atualmente a economia.
A dívida chinesa aumentou nos últimos 10 a 15 anos a um ritmo que Pettis considera possivelmente o mais rápido da história, deixando o país com um dos rácios de dívida face ao Produto Interno Bruto (PIB) mais elevados entre as principais economias, atrás apenas do Japão.
O economista recordou que, no final da década de 1990, os quatro maiores bancos estatais chineses estavam tecnicamente insolventes, após anos de concessão de crédito a empresas públicas e governos locais segundo critérios políticos, em vez da rentabilidade dos projetos.
As estimativas oficiais apontavam então para que entre 25% e 30% das carteiras de crédito fossem constituídas por empréstimos de cobrança duvidosa, embora analistas independentes, incluindo o Banco Mundial, estimassem uma proporção entre 40% e 50%.
Pequim criou, em 1999, quatro sociedades estatais de gestão de ativos, que adquiriram cerca de 1,4 biliões de yuan (178 mil milhões de euros) em crédito malparado, equivalente a aproximadamente 20% do PIB chinês da época.
"Mover empréstimos de cobrança duvidosa de um balanço para outro não os elimina", escreveu Pettis.
Para o economista, foram sobretudo as famílias chinesas que acabaram por suportar o custo do saneamento bancário, através de "repressão financeira".
As autoridades mantiveram durante anos as taxas de juro dos depósitos muito abaixo do crescimento nominal da economia e, em determinados períodos, abaixo da própria inflação.
As famílias, responsáveis pela grande maioria das poupanças, receberam retornos reais muito baixos ou negativos, enquanto empresas, grupos estatais e governos locais beneficiaram de crédito a taxas artificialmente reduzidas.
Segundo Pettis, a transferência de rendimento poderá ter atingido, nos anos de maior "repressão financeira", entre 2001 e 2010, o equivalente a 5% do PIB por ano.
"As famílias, em grande medida sem se aperceberem, recapitalizaram o sistema financeiro", afirmou.
Pettis relacionou o processo com a queda acentuada do peso do consumo na economia chinesa. O consumo total representava 63,9% do PIB em 2000, mas caiu para 49,4% em 2010, então o nível mais baixo alguma vez registado numa grande economia.
Ao transferir rendimento das famílias para empresas e governos, Pequim enfraqueceu o poder de compra das famílias, ao mesmo tempo que proporcionou capital barato aos produtores e estimulou o investimento.
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